"Até há pouco tempo pensava-se que o pé contra lateral [oposto ao operado] tinha um comportamento de membro saudável", tendo este trabalho demonstrado que as crianças submetidas a tratamentos cirúrgicos desenvolveram uma estratégia de marcha "singular para compensação do membro patológico", explicou à Lusa a investigadora Andreia Flores.

Verificou-se também que estas crianças apresentam maior instabilidade de movimentos nos membros inferiores afetados e maior rigidez nas articulações do joelho e do tornozelo por parte do membro operado.

Com este estudo, denominado "Análise da marcha em crianças com tratamento cirúrgico do pé boto", pretendia-se analisar a marcha de crianças submetidas a este tipo de procedimento, que era recomendado há cerca de duas décadas. Foi focado na região mais crítica (articulações do pé), onde foram analisadas as forças de reação do solo e os ângulos da articulação e registada a ativação muscular de alguns músculos da perna, recorrendo à eletromiografia.

O projeto surgiu de uma colaboração entre o Instituto Politécnico de Bragança (IPB), o Laboratório de Biomecânica da Universidade do Porto (LABIOMEP) e o serviço de Ortopedia Pediátrica da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (FMUP), tendo os dados sido obtidos através de avaliações a crianças com o pé boto, tratadas e seguidas no Hospital de São João.

Causas da patologia não são completamente conhecidas

As crianças com esta patologia apresentam alterações anatómicas diversas, como um menor comprimento dos tendões do pé e da perna e um incorreto posicionamento do pé, podendo este encontrar-se parcialmente ou totalmente rodado, por exemplo. As causas da patologia "não são completamente conhecidas" mas acredita-se que estejam relacionadas com fatores ambientais, deficiências vasculares, posicionamento do embrião no útero, inserções musculares anormais bem como fatores genéticos, sendo esta última a mais aceite.

O tratamento atualmente preconizado, segundo a investigadora, não recorre necessariamente à cirurgia, podendo ser substituído pelo método de Ponseti, que consiste numa técnica de manipulação em gesso, colocado até à base da coxa. O gesso é trocado, em média, a cada sete dias, num total de cinco a sete substituições. A cirurgia corretiva, indica ainda, tem como principal desvantagem induzir a pés muito rígidos e deformados, que prejudicam a eficiência da marcha.

Financiado pelo LABIOMEP, com o apoio da FMUP e do IPB, o estudo foi liderado pelo investigador da FEUP Mário Vaz e pelo médico do Hospital de São João e especialista no método de Ponseti, Nuno Alegrete, tendo a colaboração dos professores Arcelina Marques, do Instituto Superior de Engenharia do Porto, e Paulo Piloto, do IPB, e da equipa de técnicos do LABIOMEP.

Neste momento, Andreia Flores integra uma equipa de investigação em Engenharia Biomédica do Instituto de Ciência e Inovação em Engenharia Mecânica e Engenharia Industrial - INEGI, que tem participado em projetos relacionados com a biomecânica, orientados para a indústria, o lazer, a saúde e o desporto.

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