Saúde mental infantil preocupa especialistas

Há cada vez mais crianças a sofrer de stresse e de ansiedade, muito por culpa da vida agitada dos pais. Siga as recomendações do psicólogo espanhol Javier Urra e ensine o seu filho a lidar com a adversidade.

Existem acontecimentos que podem transformar-se em situações traumáticas para as crianças, gerando stresse, ansiedade, inseguranças e desiquilíbrios. No livro «Prepara o teu filho para a vida – Valores para crescer feliz», editado em Portugal por A Esfera dos Livros, Javier Urra, psicólogo clínico e psicopedagogo espanhol, alerta para a necessidade de formar pessoas equilibradas, preparadas para conseguir enfrentar dificuldades, crises e problemas desde a mais tenra idade.

Em entrevista exclusiva à Prevenir, o também presidente da rede europeia dos provedores do menor e diretor do Programa Nacional de recURRA para pais e filhos em conflito, doutorado em psicologia, ensina a lidar com situações de doença, de internamento, de morte, de bullying ou de divórcio, para proteger a saúde mental da criança.

Neste seu livro, aponta para a necessidade das crianças terem uma saúde mental positiva. Segundo a sua experiência, há muitos que não a têm?

Primeiro é necessário fazer uma espécie de higiene mental coletiva. Quem legisla e quem urbaniza deve procurar criar condições para que hajam espaços de convívios de idosos e crianças. As revistas e os jornais não devem incluir anúncios a promover aspetos que possam ser lesivos. Um exemplo disso é a proliferação de receitas hipocalóricas, que em casos extremos pode conduzir à anorexia. Tem de haver uma sociedade que não promova o aumento de stress entre crianças.

É preciso saber preparar as crianças para o divórcio dos pais. Alguns deles acabam por ser muito agressivos para elas. É também preciso ter cuidado com a permissividade tremenda que temos atualmente no que se refere ao consumo de álcool e de drogas por parte dos jovens. Essas são questões de saúde mental coletiva.

O que devem os pais fazer para ajudar a criança a conseguir essa saúde mental positiva?

Temos de promover mais atividades saudáveis, como a prática de desporto e a necessidade de termos pontos de escape. Temos de ter um maior grau de assertividade no que se refere a estas questões.

Uma das condicionantes dessa saúde mental positiva prende-se com a capacidade das crianças e jovens saberem lidar com situações como a doença, a separação dos pais, situações de bullying, a morte de amigos e familiares... Fala disso no seu livro. Que conselhos dá aos pais no sentido de prepararem, desde cedo, as crianças a lidar com este tipo de problemas?

Todas essas situações podem ser equiparadas ao veneno. Se for pouco, não faz mal. Depende da dose e do modo como as crianças são preparadas para enfrentar esses problemas desde pequenas. No caso do bullying, os pais devem estimular o filho no sentido de, se está a sofrer na pele um problema desse tipo, que lho diga, para que não o recalque e se torne, mais tarde, também ele um agressor.

Nestas situações, os pais devem fazer tudo o que está ao seu alcance para que seja cobarde e se cale. No que se refere ao lidar com situações de morte ou doença, basta fazer o que diz o meu livro. Os pais devem lê-lo e tentar pôr os conselhos que lá dou em prática. Não têm de fazer exatamente o que diz o meu livro ou o que dizem outros autores mas devem perceber as filosofias comportamentais que aí são descritas e agir em conformidade.

No caso de uma criança que vê morrer o seu animal de estimação, por exemplo, é preciso que tenham a noção de que ela está assim porque é o seu cão. O mesmo se passa com os avós. Existem laços afetivos entre a criança e este familiares e, por isso, deve prepará-la desde pequena para a ideia de que estes um dia vão morrer e ela vai deixar de os ver. Este tipo de golpes não é fácil de enfrentar mas é inevitável que as crianças sofram. Sabemos que o tempo não apaga tudo mas acaba por ajudar.

Veja na página seguinte: Modus operandi para situações difíceis

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