Há alternativa aos antidepressivos?

Em 2016, foram comercializadas mais de sete milhões de embalagens de destes medicamentos, um recorde. Guia para usar (bem) estes psicofármacos como ferramenta de superação da depressão.

É nitidamente a epidemia do século XXI, a depressão. Os números são surpreendentes e impressionantes. Em apenas 12 anos, o consumo de antidepressivos em Portugal quase triplicou, revela um relatório recentemente apresentado pelo Infarmed. Ainda sem estudos antropológicos ou sociológicos que expliquem o aumento de 240% no recurso a estes medicamentos, os especialistas vão arriscando algumas justificações.

Uma das possíveis razões, apontadas pela Autoridade Portuguesa do Medicamento, é a toma prolongada desta medicação, além do fácil acesso e da alteração das indicações de prescrição. Neste cenário, a dúvida surge. A sua toma é, de facto, imprescindível ou há casos em que os antidepressivos são dispensáveis? E que lugar podem ter outras terapias não farmacológicas no processo de superação de uma depressão?

E como não ficar refém nem da doença nem da medicação? Identificar a depressão é um passo essencial. É normal sentirmo-nos tristes. A tristeza é «um estado de espírito normal e em relação ao qual não deve haver intervenção clínica», explicou em declarações à edição impressa da revista Prevenir Álvaro Carvalho, na condição de psiquiatra e diretor do Programa Nacional para a Saúde Mental da Direção-Geral da Saúde.

Os números mais assustadores

O dia a dia é um desafio constante. «As pessoas têm de se habituar a reagir perante as situações de tristeza ou, ao contrário, de euforia. A expressão emocional dominante em cada pessoa caracteriza o estado de humor», defende o especialista em psiquiatria. Contudo, níveis muito intensos e prolongados de tristeza, superiores a duas semanas e acompanhados de outros sintomas podem ser indicadores de depressão.

«Quando estamos perante uma tristeza patológica que, pela intensidade e duração, acaba por interferir com o bem-estar e com a capacidade de cumprir compromissos, há, em princípio, lugar à intervenção clínica e tratamento», refere. «É importante que as pessoas não se deixem invadir pelo desânimo e pela ansiedade», indica ainda. Mas, para isso, procurar ajuda médica, eventualmente especializada, torna-se fundamental.

Segundo dados revelados em 2012, um em cada quatro portugueses já sofreu de depressão, uma percentagem que se assume preocupante, acima da média da de muitos países. Em 2017, de acordo com números divulgados por vários meios de comunicação social, um milhão de portugueses é afetado pela ansiedade e pela depressão. Um número que muitos especialistas consideram subavaliado.

O lugar da psicoterapia

A intervenção deve começar por psicoterapia, podendo ser necessário complementá-la com medicação. A ação terapêutica da psicoterapia, exercida por psicólogos e psiquiatras, com formação adequada, acontece através de diálogo. Como explica Álvaro Carvalho, «ajuda a pessoa a tomar consciência da origem da depressão, a encontrar resiliência e a ter um comportamento adequado perante as situações mais difíceis».

Aplicada como primeira ferramenta clínica, o problema da continuidade, muitas vezes inevitável, parece ser o custo envolvido: «Muitas vezes, é difícil mantê-la por causa das restrições económicas do paciente, já que os resultados são muito mais demorados do que a toma conjunta de antidepressivos com psicoterapia». Indicada em depressões leves e moderadas, é recomendada como primeira linha de tratamento sobretudo em crianças e adolescentes.

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