O que muda depois de uma depressão?

Pode um quadro depressivo deixar marcas irreparáveis na autoestima e na segurança?

«Sentia-me triste constantemente. Chorava o dia todo. Demorava horas para adormecer e cheguei a perder quatro quilos», conta Madalena Pinto, uma mulher que caiu nas teias de uma depressão aos 28 anos.

Hoje, ainda recorda a depressão como «a doença mais difícil de controlar». Os sintomas não mentem. Tristeza, ansiedade, fadiga, desânimo, alterações de sono, perda de apetite...

Estes são, de acordo com os especialistas, os principais indicadores de uma depressão, a perturbação psiquiátrica mais comum em Portugal. Um especialista revela as ferramentas indispensáveis para recuperar o ânimo e a resiliência para sempre

Depressão reativa versus depressão biológica

Dados de um estudo recente dizem-nos que 24 por cento dos portugueses admite já ter sofrido uma depressão. Em grande parte, tratam-se de depressões reativas. Isto é, «quadros depressivos desencadeados por determinadas circunstâncias de vida adversas, como uma separação ou divórcio, a perda de um ente querido ou uma situação de desemprego, que são perfeitamente superáveis», explica Vítor Cotovio, psiquiatra e psicoterapeuta.

«Mais difíceis de ultrapassar são as depressões que advêm de uma vulnerabilidade genética, muitas vezes, hereditária, que têm uma probabilidade de recaída mais elevada», refere o especialista. Não obstante, em ambos os casos, é possível reconquistar a confiança e a resiliência necessárias, sem sequelas.

O papel da psicoterapia

O plano de recuperação de uma depressão varia de acordo com os fatores que estão na origem do quadro depressivo. Se numa depressão com origem biológica os medicamentos antidepressivos têm um papel de destaque, em algumas depressões reativas, podem até nem ser necessários. Transversal aos dois tipos de depressão é a psicoterapia, que tem um papel fundamental na eficácia do tratamento e na prevenção de eventuais recaídas no futuro.

É a psicoterapia que fornece os recursos emocionais necessários para gerir as novas adversidades da vida, como a autoestima e a segurança, o otimismo e a resiliência. «Numa fase inicial, os medicamentos melhoram os sintomas mas é a psicoterapia que permite adquirir as ferramentas psicológicas que ajudam a aumentar a resistência face a situações de vida complicadas», frisa o especialista Vítor Cotovio.

A recuperação

Cristina Sousa, de 30 anos, também já sentiu os efeitos de uma depressão e reconhece que a própria vontade de mudar foi o estímulo fundamental para se libertar, gradualmente, do estado depressivo que estava a viver. «Comecei a olhar para o futuro com uma visão mais positiva e procurei organizar programas que me preenchessem e me fizessem sentir bem e, hoje, sei que essa mudança foi crucial na minha recuperação», conta.

E é precisamente nesta mudança que a psicoterapia pode ajudar. «É muito importante que a pessoa adquira as ferramentas de resiliência essenciais para enfrentar as adversidades. Podemos não conseguir evitar situações stressantes na vida mas podemos controlar a forma como lidamos com elas», alerta Vítor Cotovio.

A abordagem certa

As abordagens psicoterapêuticas são várias e dependem da origem da depressão. A abordagem interpretativa viaja até ao passado para resolver os problemas que remontam à infância. A existencial procura ajudar a pessoa deprimida a definir o sentido da vida, e a cognitivo-comportamental é muito eficaz nas depressões relacionadas com acontecimentos de vida adversos», indica o psiquiatra Vítor Cotovio.

Enquanto que na abordagem interpretativa e existencial, o tratamento é muito baseado na relação entre o terapeuta e o doente, na abordagem cognitivo-comportamental, o doente leva trabalhos de casa. «O objetivo é trabalhar distorções cognitivas. A pessoa deprimida tende a acreditar que, se foi mal-sucedida numa determinada tarefa, também vai ser em todas as outras e esta é uma crença errónea que deve ser combatida», alerta o especialista.

Durante uma depressão, a pessoa é dominada por uma visão pessimista, perde a capacidade de perspetivar o futuro e torna-se insegura em relação às suas capacidades, mas, de acordo com o especialista, se o tratamento for seguido à risca, é possível adquirir a resiliência suficiente para superar as adversidades e (re)encontrar o equilíbrio.

Os riscos da depressão

Quando o tratamento é interrompido, há um risco muito elevado de voltar a deprimir, perante situações stressantes ou suscetíveis de desencadearem uma nova depressão e, como frisa o especialista, é muito importante evitar estas recaídas. «Quantas mais recaídas a pessoa tem, mais fragilizada pode ficar», refere Vítor Cotovio.

«E, embora as pessoas não mudem de personalidade, podem ter alguns ajustamentos, ficam mais vulneráveis, menos confiantes e com um olhar pessimista perante a vida e, nesses casos, a depressão pode arrastar-se durante vários meses e, até, tornar-se crónica», alerta o especialista.

Madalena Pinto confessa que, na altura, optou por interromper a psicoterapia e hoje, três anos depois de ter experienciado um quadro depressivo, reconhece que receia voltar a deprimir um dia. Vítor Cotovio adianta, no entanto, que «é possível superar este medo com novas interações, onde a pessoa se sinta segura e valorizada».

7 passos para recuperar o ânimo

1. Quando for invadida por um pensamento pessimista, procure perceber se se trata de uma crença negativa acerca de si própria e lembre-se das experiências positivas que já viveu e das tarefas onde foi bem-sucedida.

2. Pratique uma atividade física de que goste. Dança, pilates, yoga... O exercício estimula a produção de endorfinas, substâncias químicas que aumentam a sensação de bem-estar e diminuem a dor e o sofrimento.

3. Seja solidária. Está provado que a partilha e a generosidade também potenciam a produção das substâncias químicas associadas ao bem-estar (ocitocina e dopamina).

4. Faça atividades relaxantes, como o yoga ou a meditação. Qualquer atividade que promova o relaxamento ajuda a contrariar o humor depressivo.

5. Identifique as suas potencialidades e capacidades. Procure perceber como pode colocá-las a render, de forma a que estas lhe tragam um retorno valorativo. 6. Mantenha uma boa rede relacional. Partilhe e crie sentimentos de pertença em grupos que façam sentido para si.

7. Não perca a capacidade de celebrar as pequenas vitórias. Aprenda a ver o copo meio vazio e não só o copo meio cheio.

3 erros que deve evitar na recuperação:

- Interromper o tratamento. Deixar de tomar a medicação prescrita pelo médico ou interromper a psicoterapia antes do tempo, aumenta a probabilidade de vir a ter uma recaída.

- Fazer generalizações negativas. Quando não for bem-sucedida numa tarefa, não caia no risco de generalizar esse fracasso para outras tarefas e lembre-se do que já conseguiu fazer com sucesso.

- Fugir dos sentimentos. É importante vivenciar situações de tristeza, para aprender a lidar com esses sentimentos mais negativos. Se os camuflarmos, eles podem revelar-se mais tarde, pelo lado patológico.

Texto: Sofia Cardoso com Vítor Cotovio (psiquiatra)

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