Consultas via internet têm (mesmo) mais-valias?

João Sequeira Carlos, ex-presidente da Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar, esclarece vantagens, riscos e cuidados a ter. Porque nem tudo é positivo…

Em Portugal, nos últimos anos, aumentaram os sites que disponibilizam consultas e acompanhamento médico online. O desregulamento desta área está a preocupar responsáveis do setor, que alertam para o perigo destas poderem estar a ser dadas por especialistas em situação irregular, em desconformidade com as normas éticas e/ou sem garantia do sigilo das informações pessoais transmitidas por esta via.

«O assunto preocupa-nos», assumiu mesmo, em entrevista ao jornal Sol, em meados de 2014, Alexandra Bento, bastonária da Ordem dos Nutricionistas. «Temos muitas denúncias de sites que prestam serviços ilegais, em que os profissionais não estão registados sequer na ordem», criticava, na altura, a responsável.

Em entrevista à Prevenir pouco depois, João Sequeira Carlos, então presidente da Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar, apontou benefícios e vantagens neste tipo de acompanhamento, mas também alertou para os riscos e para os cuidados a ter. «A interação online não substitui uma consulta médica», defendeu, na altura em que foi entrevistado, este especialista.

Sabendo que o diagnóstico de uma doença implica, em muitos casos, a observação do doente, em que situações podem as consultas online ser uma opção?

O diagnóstico precisará sempre da observação do doente. A interação não presencial entre o médico e o seu paciente é uma opção quando é necessário esclarecer dúvidas referentes a sintomas e sinais dos problemas de saúde já avaliados em consulta. É também uma boa opção para sinalizar um novo problema que exija avaliação. Nesse caso, o médico pode realizar uma abordagem inicial não presencial para orientar o seu doente para uma consulta num prazo adequado.

Há também questões que podem ser abordadas através de uma interação não presencial, nomeadamente em termos de aconselhamento, partilha de resultados de exames, agendamento de consultas, solicitação de prescrição de medicação crónica e pedido de orientação no contexto de gestão integrada da doença crónica.

A consulta online não dispensa, portanto, uma consulta presencial?

Do ponto de vista técnico-científico e deontológico, uma consulta médica é presencial e será sempre a essência da prestação de cuidados de saúde. A interação online não substitui uma consulta médica e deve ser encarada como um auxílio à prestação de cuidados que tem todo o sentido no contexto da comunicação interpessoal no século XXI.

A medicina deve ser sensível à evolução tecnológica e esta realidade ganha especial relevo quando a procura de cuidados está a aumentar e a capacidade de resposta em consulta presencial é finita.

Que cuidados devemos ter ao recorrer a estes serviços?

Para além da consciência de que a interação online não substitui uma consulta médica, deve existir a garantia de que tanto o médico como o paciente utilizam endereços protegidos que são acedidos exclusivamente pelos próprios. Deve estar assegurado o pressuposto da fiabilidade e certificação técnica dos meios e dos profissionais envolvidos.

Texto: Catarina Caldeira Baguinho com João Sequeira Carlos (médico especialista em medicina geral e familiar e ex-presidente da Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar)

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