A carne que andamos a comer

Os últimos alertas da OMS em relação às carnes processadas vêm pôr o dedo da ferida. Saiba o que procurar no rótulo e aprenda a escolher o melhor para a sua saúde
créditos: AFP/Noel Hendrickson

Se teve contacto com o meio rural na sua infância, lembra-se como os seus avós tratavam os animais que consumiam? Com respeito, alimentando-os com o melhor pasto ou ração e cuidando da higiene do seu habitat. Com mais ou menos empenho, o bem-estar dos animais também deveria ser uma preocupação adaptada às grandes explorações pecuárias. De lá para cá, entre avanços e recuos, muita coisa mudou, incluindo a forma como olhamos para os produtos dessa indústria.

As normas comunitárias estão mais exigentes a este nível e pretendem assegurar que a circulação e comercialização de carne fresca obedeça a critérios rigorosos mas as imagens televisivas têm dado o alerta e denunciado as condições desumanas dos sistemas de produção intensivos. Será que sabemos, realmente, o que andamos a comer? Os últimos alertas da Organização Mundial de Saúde (OMS) em relação às carnes processadas relançam o tema.

Comprar no talho ou no supermercado?

Aviários com luz artificial, apinhados de frangos selecionados para crescimento rápido, bovinos e suínos a serem abatidos em série, por vezes sem grandes preocupações éticas ou ambientais, apenas com o único propósito de assegurar os maiores índices de produtividade. Provavelmente, quando escolhe a carne no talho gostaria de evitar este cenário e garantir que provém de produções extensivas, onde existe mais cuidado com o bem-estar do animal e estar certo que esta diferença garante a melhor textura e sabor.

No entanto, segundo Dulce Ricardo, engenheira da DECO, «a qualidade nutricional da carne que comemos varia entre espécies, de animal para animal, de peça para peça, com o tipo de alimentação. A qualidade vai muito além das características nutricionais e engloba, entre outros, aspetos organoléticos, microbiológicos, a presença de resíduos, de medicamentos ou de contaminantes, sendo que tem havido uma evolução muito positiva», realça a especialista.

Criado ao ar livre

Ser criado ao ar livre, como indica a rotulagem de alguns produtos, também pode não ser garantia de melhor qualidade, refere Nuno Dias, técnico alimentar da DECO. «Os nossos testes a frango e a ovos, por exemplo, confirmam que não existe melhor qualidade por serem criados ao ar livre, além de que os alimentos provenientes de sistemas alternativos são mais caros». A informação do rótulo pode ser apenas operação de marketing.

«Criado em total liberdade, como se os animais galopassem pelos campos sem quaisquer restrições, alimentados à base de cereais, como se as rações não fossem elaboradas com cereais, caseiros ou do celeiro, como se a produção não estivesse industrializada. Embora existam regras, são afirmações que não são determinantes para a qualidade do produto», alerta o especialista.

Frescura que se vê

Na opinião da engenheira alimentar, na hora de comprar, «o que importa é confiar nos nossos sentidos. A carne deve ter um odor neutro e pouco pronunciado. A cor deve ser característica e o aspeto tem de ser fresco, sem matérias estranhas, sujidade ou sangue». Ao contrário do que se acredita, as propriedades da carne fresca podem não diferir muito das da congelada em vácuo.

Dulce Ricardo considera mesmo que, «embora o tempo de conservação possa ser diferente, e até mesmo algumas características, nada indica à partida que qualquer uma das formas de comercialização sobressaia». Ainda assim, continua a ser crença generalizada que a carne fresca é sempre superior à congelada. Tal como o peixe, tal nem sempre sucede.

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