Estoril: Dentro do quarto sangrento o jantar é de conto de fadas

Pode um conto tradicional tornar-se numa perturbante sobremesa ou num aterrador prato principal? Pode, e disso mesmo deram prova alunos e docentes da Escola Superior de Hotelaria e Turismo do Estoril. Um jantar onde cozinha, literatura e design casaram, dando corpo à antologia de contos “The Bloody Chamber”, obra de referência da escritora britânica Angela Carter.

Ainda criança foi-me oferecida uma antologia de contos. Uma obra de grande formato, de capa dura, papel encorpado e belamente ilustrada. A qualidade daquele livro nunca conseguiu superar na forma a apreensão e desconforto que o conteúdo das histórias nele encerradas me provocavam. Não há como ficar indiferente à narrativa de um nobre de barba azul que proíbe a jovem esposa de entrar numa das divisões da sua sombria casa. Sabendo o leitor de antemão que as seis anteriores mulheres desapareceram. Ou de não temer pela vida da criança que se embrenha na floresta, mundo onde habita nas sombras um enorme e feroz canídeo. Não o sabia eu na altura, mas aquelas páginas onde lia o “Barba Azul”, o “Capuchinho Vermelho”, ou o “Gato das Botas”, eram depositárias de uma centenária tradição europeia de contos que incluía autores como Madame de Beaumont, Charles Perrault e os irmãos Jacob e Wilhelm Grimm.

Estoril: Dentro do quarto sangrento o jantar é de conto de fadas
A escritora britânica Angela Carter (1940-1992).

À época não poderia imaginar que quase quatro dezenas de anos volvidos, seria um dia confrontado, à mesa do jantar, no restaurante de uma instituição de ensino no Estoril, com os temores que estas narrativas sombrias me imprimiram. Para mais quando sou convidado a abandonar o ambiente quente e ensolarado de um fim de tarde de primavera e a perpassar a porta para uma câmara fria escurecida com pesados reposteiros. Um lugar onde ardem dezenas de velas em outros tantos castiçais e a música do compositor francês Erik Satie ecoa melancólica na escuridão. Uma câmara com uma mesa de 12 metros, 25 lugares marcados e onde não sou poupado à companhia de um esqueleto à escala real e ao convívio com uma suína cabeça toda ela expelindo fumos. Dentro de momentos serei convidado a degustar crocantes de sangue, tártaros envolvidos em alcachofras e, inclusivamente, a aguardar de olhos vendados que chegue à mesa uma laje onde é servido o prato principal.

Os alunos da ESHTE momentos antes de abrir a mesa para o jantar.
créditos: Joaquim Pinto

Agrada-me, contudo, saber que sou protagonista de um contexto cénico engendrado há meses no âmbito da cadeira de Food Design. Uma noite em torno da cozinha e das artes onde têm um papel central docentes e, principalmente, os alunos do Mestrado em Inovação em Artes Culinárias da Escola Superior de Hotelaria e Turismo do Estoril (ESHTE). A sala soturna onde se desenrolarão as próximas duas horas de jantar é o Descobertas Restaurante, hoje preparado a preceito para receber um momento de homenagem a uma autora britânica, Angela Olive Carter (1940-1992), que olhou para a grande tradição contista europeia e a reinterpretou e adaptou à sua obra. No caso presente, olhamos e provamos a antologia “The Bloody Chamber” (1979). Páginas que os alunos da ESHTE bem sabem como são desafiantes. Leram-nas integralmente, discutiram-nas com o professor Ricardo Bonacho, trabalharam-nas com chefs. E, finalmente, traduziram-nas em seis momentos de degustação para uma linguagem universal, a da cozinha.

Estoril: Dentro do quarto sangrento o jantar é de conto de fadas
"Comer gato por lebre", em alusão alusão ao conto reinterpretado por Angela Carter, "O Gato das Botas".créditos: ESHTE

Neste jantar de maio “Angela Carter. Appetites beyond the grasp of imagination”, todos os pormenores contam até o número de lugares à mesa. Vinte e cinco, recordando que neste 2017 volve um quarto de século sobre a morte da autora (40 sobre a sua visita a Portugal). Um convívio gastronómico integrado no âmbito mais alargado do encontro académico e cultural “Receiving /Perceiving Angela Carter”que decorreu de 23 a 30 de maio na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.

Na próxima página levantamos o véu sobre este jantar.

Comentários