Mundo próprio

Uma viagem ao universo complexo das perturbações do espetro do autismo

Tem os olhos do pai, o nariz da mãe e é o encanto de toda a família. O seu filho. Único!

 

Tão especial que nada nem ninguém se lhe pode comparar. Com o passar dos meses, ele vai crescendo bonito e saudável.

 

Contudo, algo o distingue dos outros meninos. No infantário prefere ficar no seu canto e, ao contrário, dos colegas ainda não pronunciou as primeiras palavras. As dúvidas acumulam-se e, uma vez no consultório do médico, transformam-se em suspeitas. Autismo! Porque será ele diferente das outras crianças? Onde terão os pais falhado? No carinho?

 

Erros de educação ou falta de afeto. Estas são crenças que ainda hoje rodeiam as perturbações do espetro do autismo, uma das mais complexas a nível do comportamento e desenvolvimento humano. Guiados por Nuno Lobo Antunes, neuropediatra, e por Teresa Brandão, consultora científica no centro Cadin, fomos tirar estas e outras questões a limpo. Entre connosco no mundo especial das crianças autistas e compreenda-as melhor.


Emoções à parte

 

Estima-se que em todo o mundo, cerca de cinco em cada dez mil crianças sofra de autismo, patologia que se traduz no défice cognitivo e perturbações comportamentais, de sociabilização e linguagem. Especialistas afirmam que resulta de uma perturbação do desenvolvimento do sistema nervoso que afeta o funcionamento cerebral a vários níveis e que ocorre ainda antes do nascimento.

 

A diversidade de diagnóstico, tanto pelas áreas afectadas como pela gravidade, justificam o nome. Perturbações do espectro do autismo! A sua origem é complexa. Parte da responsabilidade recai sobre os genes, mas pode estar igualmente associado a rubéola materna, doenças metabólicas ou a síndrome do X frágil, este último talvez uma das explicações para que quatro em cada cinco casos sejam do sexo masculino.

 

Ter já um filho com autismo aumenta a probabilidade, como refere Nuno Lobo Antunes. «Cerca de três por cento, uma incidência semelhante à que se verifica nos gémeos falsos. Pelo contrário, nos gémeos verdadeiros a probabilidade de ambos serem autistas pode atingir os noventa por cento. É uma realidade complexa que não implica um gene mas um conjunto de genes», sublinha o especialista.

 

Definitivamente abandonada está a ideia de que o autismo resulta da falta de carinho materno. Apesar de afectar o comportamento, a sua origem não está nas emoções, como exemplifica o especialista, «Não há nenhuma ligação definida entre aspectos emocionais na gravidez e o aparecimento do autismo. É o resultado de uma disfunção cerebral. Nasce-se autista», refere. 

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