Esta questão de sermos pais, nos dias de hoje

As teorias de educação são mais que muitas, podemos escolher uma diferente para cada semana do ano. Somos aquele louco no meio da ponte.

Existe um oceano de informação disponível. Basta um clique e já estamos a ler sobre as teorias atuais e as correntes modernas. Um mudar de página e aparece um novo rol de itens que temos que cumprir para sermos bons pais, frases e semânticas novas que temos que utilizar para sermos mais bem compreendidos, gestos e atitudes que devermos adotar para não traumatizar a criança, programas que devemos fazer, a dois, a três, ou a solo, eventos a que temos que assistir para estarmos mais informados, livros que devermos ler para estamos a par do que se quer e pretende para as crianças dos dias de hoje. É cansativo.

É mais do que cansativo, é extenuante.

Deve-se elogiar, não se deve elogiar, deve-se deixar a criança exprimir a sua personalidade, deve-se obrigar a criança a respeitar certas regras, deve-se deixar ser a criança a ditar o seu horário, deve-se impor um horário, deve-se falar baixo, não se deve dar a palmada (tão nossa conhecida), deve-se estar sempre a chamar a atenção, deve-se dormir na cama dos pais, não se muda de quarto até a criança querer, deve-se dar beijos, não muitos, não poucos. Deve-se pressionar a criança para ter boas notas como sinal que vai ser bem sucedida neste mundo, afinal deve-se ignorar por completo a vida acadêmica pois o que importa é que seja feliz e sorridente, devemos educa-los para serem bilingues, trilingues e já a jogar xadrez, devemos aprender o mandarim e incentivar os instrumentos musicais pois activa uma parte do cérebro  não usada, e tudo o que aprendemos na nossa infância já não faz sentido nenhum.

Devemos deixar a criança berrar, devemos deixar chorar, mas afinal não, não pode chorar, nem berrar, pois fará mal ao seu desenvolvimento e à vida de adulto (e ninguém quer prejudicar a vida dos filhos). Se é hiperativa, precisa de dormir, senão já não precisa de dormir a sesta, deverá dormir com música, às escuras e com luz de presença, em silêncio e rodeada dos mais que tudo. Deve ouvir música, deve ver televisão, afinal, só não deve jogar iPad, nem falar no Skype até aos seus 12 anos de idade ( algo muito fácil de alcançar nos dias de hoje, diga-se de passagem).

Deve comer tudo biológico, deve ser vegetariana e ainda macrobiótica, deve ficar em casa a descansar, não deve ir a restaurantes, não deve estar sem os pais, não deve brincar sozinha, deve ser capaz de contar até dez ainda no berço, deve andar descalça em casa e na rua, deve poder cantar de madrugada, deve poder escolher o menu das suas refeições, deve isto e deve aquilo.

A pressão para sermos mais e melhores é mais que muita. A pressão para termos filhos extraordinariamente felizes é grande. Devemos ser pais, acima de tudo, sempre, 24/7. Devemos anular a nossa identidade de pessoas, mulher, marido, homem, esposa, filha e irmã, para sermos unicamente mãe ou pai. Devemos brincar e ouvir, rir e cuidar, alimentar, tratar, educar, sempre e  todo o sempre. Deixamos de ter liberdade para podermos ter dez minutos só para nós, pois as críticas e as consequências (segundo os entendidos) poderão ser nefastas.

Quanto mais lemos, ouvimos e queremos fazer, mais nos perdemos. O bom senso, que sempre guiou os nossos pais e todos os das gerações prévias, deixou de ser a bússola orientadora. Agora aprendemos pelos livros, de estranhos que (des)conhecemos, pela net, pelos outros, e menos por nós. As teorias de educação são mais que muitas, dependendo do sentido que queremos, do estilo em que acreditamos. Podemos escolher uma diferente para cada semana do ano. O certo de hoje é o errado de amanhã. Mas, se uns acreditam nos benefícios da tecnologia, outros deitam por terra o seu uso por completo.

Somos aquele tolo no meio da ponte, ora vira para um lado, ora vira para o outro. Andamos ao sabor do vento e dos dizem que sabem mais, sempre com o medo, com a chantagem psicológica que iremos prejudicar os nosso filhos.

Ora, é avassalador rumar sem bússola.

Mas não devia ser muito difícil criar e educar uma criança. Afinal, basta darmos o nosso melhor, usar o bom senso e fazer o que sabemos: amar e cuidar.

Marta Andrade Maia

My baby blue blog 

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