Por que traímos?

As razões para o crescente aumento da infidelidade nas relações amorosas

«Já não confiava no meu namorado e acabei por traí-lo», assume Raquel, 35 anos. «Um dia, conheci um amigo de uma amiga por quem senti uma química muito forte. Ele convidou-me para sair, jantámos algumas vezes juntos e acabámos por trocar alguns beijos. Namorava há quatro anos mas já não confiava no meu namorado nem acreditava no futuro da nossa relação», admite hoje.

«Ele mentia-me em várias circunstâncias e, mais tarde, vim mesmo a confirmar que ele me traía. Não me orgulho do que fiz e, na altura, deixei-me envolver porque estava muito carente e não me sentia amada. Mas, hoje, sei que mesmo que volte a passar pelo mesmo, não quero repetir este comportamento», considera, contudo, Raquel.

Um especialista revela as causas que estão na origem da infidilidade e afirma que é possível superar e até mesmo evitar uma traição. Rotina. Perda de intimidade. Desilusão. E, mais tarde, o foco excessivo nos filhos. Estes são, segundo Manuel Peixoto, presidente da Sociedade Portuguesa de Terapia Familiar, os principais motivos que levam homens e mulheres a trair.

No entanto, estudos recentes têm mostrado que a prática de infidelidade pode estar relacionada com determinadas características da personalidade e, até, com uma pré-disposição genética. O especialista explica que há «um permanente conflito entre a determinante biológica, a psíquica e a cultural. Afinal, a monogamia não está na essência biológica do ser humano, é uma imposição cultural e social». Ainda assim, não deixa de alertar que prevenir uma traição é possível e encara a infidelidade como uma decisão do casal.

O mito de que os homens traem mais

Estudos recentes provam que entre a percentagem de homens e mulheres que admitem já terem traído, a diferença é, na verdade, muito pequena. Num estudo da Universidade de Guelph (Canadá), 19% das mulheres confessou já ter traído, face a 23% dos homens. No entanto, tanto no caso feminino como masculino, os números reais podem ser muito superiores.

Outro estudo da Universidade de Montreal, no Canadá, revelou que 41% dos inquiridos já tinha sido infiel. «Os estudos não são consensuais», constata Manuel Peixoto, explicando que «por um lado, a definição de infidelidade é muito variável, tem um grande peso moral e religioso e, por outro, mesmo com garantia de anonimato, as pessoas têm dificuldade em assumir a infidelidade, devido à pressão social associada».

Foi traída. A culpa é sua?

Embora existam exceções, o psicólogo e terapeuta encara a infidelidade como uma decisão do casal. «Há um que a executa, mas a infidelidade tem um significado no contexto da relação conjugal. Quando acontece, geralmente, a culpa é de ambos e isso tem que estar clarificado para se avançar para uma terapia de casal sob uma situação de infidelidade», alerta.

Na sua prática clínica, o especialista confidenciou-nos que a maioria dos casos de infidelidade decorre de uma deterioração da relação ou de uma provocação ao parceiro, na tentativa de reativar a relação. E, em ambos os casos, o motivo é sempre o mesmo. «A relação está desprezada e já não há momentos de intimidade, porque a rotina se instalou ou porque os filhos passaram a ser o único foco do casal», revela o especialista.

Os genes da infidelidade

«Um casal que se desleixa, que não cuida de si, está a cometer um crime contra si próprio. A perda de intimidade do casal, leva, por vezes, à procura de uma intimidade fora do casal», alerta Manuel Peixoto e essa é, segundo o especialista, uma das principais causas da infidelidade. Mas existem outras. Em alguns casos, na origem da traição podem estar determinadas características da personalidade e, até, uma pré-disposição genética.

O estudo já citado, realizado pela Universidade de Montreal, concluiu que as pessoas com um estilo de afeto esquivo (com dificuldade em estabelecer relações de intimidade e que têm medo do compromisso) têm mais propensão a trair. Outro estudo norte-americano, levado a cabo pela State University of New York foi mais longe e descobriu que os genes associados aos comportamentos que buscam novas sensações, como o consumo de álcool ou o jogo, também podem estar associados à promiscuidade sexual e à infidelidade.

Os investigadores concluíram que as pessoas com a variação genética designada de DRD4 7R+ eram mais propensas a cometer infidelidade. Cerca de 50% dos indivíduos estudados que tinham a variação 7R+ relatou ser infiel, em comparação com 22% que não tinha essa variação genética, concluiu a investigação.

Infidelidade feminina versus masculina

Na pesquisa da Universidade de Montreal, os investigadores diferenciaram também os motivos que levam homens e mulheres a trair e identificaram como principais preditores da infidelidade masculina a facilidade de excitação sexual e a preocupação com a falha no desempenho sexual. Já para as mulheres, a questão da felicidade é primordial e, segundo o estudo, as mulheres que estão insatisfeitas no seu relacionamento são duas vezes mais propensas a trair.

Contudo, o especialista Manuel Peixoto considera que esta é uma realidade que está a mudar. «Atualmente, já há uma grande percentagem de homens que trai, em busca de um envolvimento afetivo», diz o especialista. Um estudo publicado recentemente pelo The Wall Street Journal avança também que a forma como as mulheres encaram os relacionamentos está a mudar. No estudo, 77% das mulheres disseram que precisavam de ter o seu espaço pessoal num relacionamento, em oposição a 58% dos homens.

O sentimento de culpa

É comum depois de uma traição surgir o sentimento de culpa. A intensidade desse sentimento é, no entanto, diferente entre homens e mulheres, de acordo Manuel Peixoto. «Na minha prática clínica, é frequente as mulheres falarem das suas infidelidades com relativa tranquilidade. Normalmente, entendem a traição como uma consequência de uma deterioração da relação conjugal e vivem o acontecimento com mais sentido de responsabilidade», ressalva o especialista.

«Já os homens podem viver a situação com uma enorme ansiedade e sentimentos de culpa avassaladores», revela ainda. O especialista alerta que o problema não está na infidelidade mas, sim, nos motivos que levaram à traição e que podem ser prevenidos. Já lhe tinha ocorrido?

É possível superar uma traição?

«Claro que sim». Esta é a resposta de Manuel Peixoto. No entanto, o especialista alerta que, para que a traição seja superada, é fundamental que o casal reconheça que a responsabilidade do sucedido é de ambos, mesmo quando é só um a ser infiel. «Muitos casos terminam em divórcio», reconhece mas, quando a traição decorre de uma deterioração da relação, é possível recomeçar, voltando a estimular a paixão», refere.

A capacidade de perdoar é outro requisito fundamental e que, segundo o especialista, se torna menos dolorosa, quando a infidelidade é mútua. «A separação ocorre, principalmente porque as pessoas se distanciaram de tal forma que já houve um divórcio emocional há muito tempo atrás», conclui.

O testemunho de outra mulher que também traiu

«Vivia com ele e fui enganada durante dois anos», começa por justificar-se Daniela, 33 anos. «Já várias pessoas me tinham dito que tinham visto o meu namorado com outra mulher, mas eu nunca acreditei. Ao fim de seis anos de namoro, quando já estávamos a viver juntos e a planear o nosso casamento, ele confessou-me que já me tinha traído, mas ocasionalmente, e eu ainda o perdoei», recorda.

«Pouco tempo depois, vim a saber que, afinal, a traição não tinha sido pontual e que ele mantinha uma outra relação, há dois anos. Senti-me completamente perdida e saí de casa. Ele ainda tentou reatar várias vezes mas eu não cedi e, hoje, tenho a certeza de que foi a melhor decisão que tomei», considera Daniela.

3 passos para evitar uma traição:

1. Nunca deixe de investir na relação e não fique à espera que seja sempre o outro a tomar a iniciativa. É fundamental que os dois elementos contribuam de forma equilibrada para o bem-estar do casal. Quando é só um a investir, a probabilidade de ocorrer uma traição é maior.

2. Exprima o que sente, provando que está atenta às necessidades do seu companheiro. Amar é cuidar do outro, tomar em consideração os desejos do outro e não o amor-próprio.

3. Não se foque em demasia na família. Não se esqueça que existe uma entidade de casal, além da entidade de família. Reservem tempo para os dois, voltem a namorar, saiam para jantar fora, agendem um fim de semana a dois.

Texto: Sofia Cardoso

artigo do parceiro:

Comentários