Como lidar com personalidades tóxicas

Aprenda a identificá-las e liberte-se de relações que tornam os dias cinzentos

Exercer o nosso ponto de vista com firmeza, respeitar o outro e, assim, conquistar o seu respeito, tanto nas relações amorosas como nas relações sociais.

Devia ser fácil mas não é. Muito pelo contrario!

O desafio é grande mas assume-se gigantesco quando o outro tem uma personalidade, digamos, negativa.

Essa (rara e exigente) capacidade, chamada assertividade, exige um treino diário e é a peça-chave para conseguirmos sair ilesos do embate com personalidades com traços tóxicos que «todos nós possuímos», até certo ponto, mas que se tornam um problema «quando são disfuncionais e muito generalizados no funcionamento de alguém», descreve Fernando Magalhães, psicólogo clínico.

Narcisista

«Sente-se especial e único, quer estar acima das regras e ter privilégios em relação aos outros, que considera inferiores. Deseja todas as atenções e não cumpre regras nem horários. Não se preocupa com os sentimentos dos outros, é arrogante e dirige todas as conversas para si próprio», descreve Fernando Magalhães. O contacto regular com o narcisista acaba por nos ensinar que «é benéfico para a satisfação pessoal ter um interesse genuíno pelos outros e que estar demasiado autocentrado produz infelicidade».

«O narcisismo apenas afasta as pessoas e diminui uma autoestima que, na verdade, já era baixa», refere ainda o especialista. Apresentar o nosso ponto de vista raramente funciona. Para obter um sim de um narcisista é preciso mostrar-lhe o que ele terá a ganhar. «Defina os seus limites claramente, mas evite críticas ou comentários negativos», aconselha o psicólogo. Se se sentir anulada, asfixiada ou achar que ele apenas se aproveita de si para receber atenção, é sinal de que terá de repensar a relação com essa pessoa.

Egoísta

Este ser autocentrado, conta Fernando Magalhães, «está apenas preocupado com os seus próprios interesses. Raramente elogia, não age para os outros e lida mal com sucessos alheios». Ainda assim, o contacto com esta personalidade tem um lado positivo. Permite-nos perceber que «ser egoísta é uma infelicidade, que a partilha de bons e maus momentos é uma fonte de satisfação e que a vida não se resume a acumular coisas ou comparações com os outros».

«Aprenda a separar-se emocionalmente do egoísta e não passe a ideia de que depende dele. Também não é produtivo dizer-lhe que é autocentrado», recomenda o especialista. Sentir que «extrai muito de si ou que é menos importante do que ele» é sinal de que a relação com essa pessoa só lhe está a fazer mal.

Invejoso

«Sentimos que compete connosco. Quer ter sempre mais e mais, apregoando muitas vezes os bens que obteve. Fica irritado e zangado com as nossas realizações e não as reconhece nem elogia», descreve Fernando Magalhães. O seu comportamento faz-nos perceber com clareza que «a vida não se pode resumir a uma competição por bens materiais ou realizações e que o valor das pessoas não é comparável ou competitivo».

Se o invejoso chegar ao ponto de a desmoralizar com comentários como «tu não vais conseguir» e a fizer sentir-se desapoiada, distancie-se emocionalmente. «Não espere elogios ou apoios dessa pessoa. O melhor é partilhar os sucessos e dificuldades com quem a motiva. Compreenda o que é mais importante num relacionamento e defina essa posição assertivamente», refere mesmo Fernando Magalhães.

Manipulador

O mais importante para esta pessoa é «obter controlo e poder. O manipulador tenta modificar e controlar o nosso comportamento e pensamento. É implícito e velado no seu comportamento», sustenta o especialista. Com o tempo, a relação com ele faz-nos ganhar a certeza de que «temos o direito de expressar as nossas necessidades, mas de forma clara e aberta». Felizmente, o manipulador «tende a ser descoberto e, quando isso acontece, fica isolado».

Limite o contacto se se sentir culpada ou pressionada por não agir ou pensar da mesma forma que ele ou se se aperceber que está a adotar um comportamento contrário à sua maneira de ser. Seja firme, «mantenha as suas posições e opiniões, não ceda à pressão», aconselha o psicólogo Fernando Magalhães.

Lidar com um pessimista

Como gerir a relação com a personalidade presa à máxima «já sei que vai correr mal»:

- Identifique-o

«Espera sempre o pior. Centra-se nos aspetos negativos e nem repara no que pode ser positivo, desvalorizando qualquer realização pessoal», refere Fernando Magalhães. Denuncia-se por um «comportamento lento, arrastado» e uma atitude «cética e descontente». Está quase sempre «triste, mostra-se desconfiado e relutante».

- Aprenda com ele

O contacto com esta personalidade leva-nos a constatar que «o pessimismo paralisa a ação, gera emoções negativas e queixas inúteis e que apenas um otimismo racional nos pode motivar a agir e a aprender com as experiências».

- Defenda-se dele

O pessimismo pode ser contagiante. sentir-se mais pessimista e triste e menos ativa do que o habitual, depois de estar com essa pessoa, é sinal dessa influência. «torne claro que alguns pensamentos negativos são distorcidos e irracionais e não alimente conversas negativas».

- Avalie se deve ou não manter o relacionamento

Faça um balanço sobre o custo-benefício da relação. Afeta o seu bem-estar? Tem algo a ganhar ou a aprender? O que acontecerá se deixar de falar com essa pessoa? Se a relação não afeta a sua autoestima, assuma uma atitude assertiva. Use frases na primeira pessoa («eu discordo…» em vez de «tu não tens razão…»). Mantenha um tom de voz sereno e firme, o contacto visual e as costas direitas, não gesticule e respire pausadamente.

Não tenha medo de dizer não e dê explicações curtas. Antes de falar, pense no que quer dizer. Por vezes, a não assertividade é razoável. «Perante alguém violento ou agressivo, poderá ser melhor abandonar ou ignorar a situação para não a alimentar. Perante alguém demasiado negativo poderá ser razoável e dizer em voz alta que isto faz mal não vou ouvir mais e sair da situação», exemplifica Fernando magalhães.

Se se sente esmagada por essa relação coloque-lhe um ponto final. «Explique os seus motivos ou necessidades e os aspetos que se tornaram incompatíveis para si, mas destaque também pontos positivos na situação», recomenda ainda o especialista, psicólogo clínico no centro Clínico e Educacional da Boavista.

Texto: Nazaré Tocha com Fernando Magalhães (psicólogo clínico no centro Clínico e Educacional da Boavista)

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