A criatividade treina-se

Sem ela, nada de novo acontece. Tendemos à monotonia e à repetição. Felizmente, é possível desenvolvê-la através de exercícios simples e aprender com quem faz dela profissão.

Quando, em 1990, uma equipa de cientistas da NASA tentava, sem sucesso, descobrir uma forma de arranjar uma distorção nas lentes do telescópio Hubble em órbita, a solução surgiu ao engenheiro Jim Crocker no duche. Ao olhar para o formato do chuveiro do hotel em que estava, posicionado numa espécie de braços ajustáveis, lembrou-se de colocar pequenos espelhos no Hubble de forma similar para corrigir a distorção.

A história foi contada à Time pelo psicólogo Keith Sawyer, autor do livro «Explaining Creativity: The Science of Human Innovation» e serve para explicar como funciona a criatividade. «Banheira, cama e autocarro são os três sítios onde as ideias mais surgem repentinamente e não é por acaso», explica o autor. Nesses contextos, desligamos do problema que queremos resolver e descontraímos.

A nível cerebral, libertamos dopamina e relaxamos partes do córtex pré-frontal responsáveis pelo pensamento lógico e executivo. «Ficamos com uma atenção mais solta e desfocada, permitindo a outras áreas do córtex pré-frontal ficarem mais ativas, nomeadamente as responsáveis por fazer associações entre contextos distintos ou dar respostas emocionais», explica.

Daí a um «Eureka!», o grito de felicidade que se materializa após uma boa descoberta, vai um passo e esta é uma capacidade preciosa em que os humanos se tornaram especialistas. Nos últimos anos, a generalização da internet também contribuiu para novas formas de dar utilidade a objetos e a pensamentos até aí criados para outro fim. Veja também os novos fenómenos de criatividade que as redes sociais estimulam.

Uma pessoa mais criativa é mais feliz

«A criatividade é literalmente o maior motor de progresso humano», afirma o psicólogo Vítor Rodrigues. «Toda a cultura é produto de processos criativos, uma forma de atividade mental que envolve flexibilidade, capacidade imaginativa, pensamento divergente e abstração, permitindo desenvolver ideias, imagens ou produtos inovadores. Sem ela não teríamos artes, nem filosofias, nem religião, nem ciência», acrescenta ainda o especialista.

Sem ela, seríamos menos felizes. «Gostamos de nos sentir produtivos e a criatividade está no topo óbvio das atividades produtivas pois, de certo modo, é a mãe de todas, faz-nos sentir capazes de iniciativa, progresso, crescimento psicológico. Sem ela, tendemos à monotonia, à repetição e rigidificação. Nesse sentido, ela contribui para a felicidade», adianta ainda Vítor Rodrigues.

Uma capacidade universal

«Todo o ser humano é criativo. Uns utilizam a sua criatividade para arranjar carros, outros para pintar, outros para dar aulas», garante Margarida Fonseca Santos, escritora. «Somos criativos, seja quando inventamos desculpas por termos chegado atrasados, quando decidimos pôr ketchup no batido ou mudar a mobília de sítio lá em casa», acrescenta o ator Pedro Tochas.

E se alguns parecem mais criativos «é simplesmente porque treinam mais essa habilidade», refere a consultora na área da criatividade Anita Silva. A ciência corrobora estas afirmações, diz Vítor Rodrigues. «Há muitos estudos a sugerir que a criatividade pode ser treinada através de exercícios que ajudam a desenvolver condições psicológicas que facilitam o seu aparecimento».

«Aqueles que julgamos mais criativos são simplesmente pessoas que treinam mais esta capacidade e podemos aprender com elas», refere o especialista, apologista de uma série de exercícios que, através de um processo de estimulação do inteleto, conseguem trabalhar a capacidade de exercitar o poder criativo individual de cada um.

Veja na página seguinte: Os exercícios práticos que o vão tornar numa pessoa mais criativa

Comentários