Sim ou não à interrupção da menstruação?

Para muitas mulheres, o período é um verdadeiro calvário, mas devem ir ao ponto de o interromper? Riscos, vantagens e cuidados a ter na toma contínua de contracetivos hormonais

A pílula. Foi o motor da emancipação feminina e, mais de 50 anos depois, contribui de forma decisiva para a forma como as mulheres gerem o seu destino. Após a liberdade de conceção chega, agora, uma nova tendência. O desejo de libertação da menstruação, uma vontade que leva mulheres de todas as idades a tomar contraceptivos hormonais sem interrupção. A toma contínua é uma opção procurada por mulheres que têm dores menstruais fortes, tensão pré-menstrual ou que pretendem suspender a menstruação por questões de conforto ou, por exemplo, devido à prática desportiva.

«Muitas atletas de alta competição tomam a pílula contínua para não menstruarem. Favorece o treino, têm mais hemoglobina, aguentam melhor o esforço e têm melhor rendimento desportivo», diz Alexandre Lourenço, ginecologista que, em conjunto com Tereza Paula, médica especialista na mesma área, esclarece o que não pode deixar de saber no que se refere a este assunto. Um tema sensível para muitas mulheres.

Que métodos contraceptivos permitem interromper a menstruação?

Os métodos hormonais. A toma contínua pode, como refere Tereza Paula, ginecologista, «ser feita com qualquer forma de contraceção hormonal, seja em forma de pílula, anel ou adesivo». Na opinião de Alexandre Lourenço, «se o objetivo for interromper a menstruação, durante três meses, pode tomar uma pílula continuamente. Se quiser não menstruar durante dois ou três anos, quer o dispositivo (com hormonas, o SIU) quer o implante podem ser mais adequados. Deve ser feita uma avaliação da mulher e dos riscos, para perceber qual é a melhor opção».

Existe uma pílula específica para este fim?

Nos Estados Unidos da América existe já uma pílula para este efeito, enquanto em Portugal se recorre à toma sucessiva da pílula de 21 dias. Segundo Alexandre Lourenço, «só as monofásicas devem ser usadas para este fim, pois a dose deve ser sempre igual. Caso contrário, alguns comprimidos podem não ter estrogénio ou progesterona e isso pode levar a menstruar. A pessoa pensa que está a fazer a toma contínua mas não está».

Qualquer mulher pode tomar a pílula de forma continuada?

«As indicações e contraindicações da toma da pílula mantêm-se, ou seja, as mulheres que não podem tomar a pílula com pausa também não o podem fazer de forma contínua», defende Tereza Paula. Alexandre Lourenço acrescenta que «as mulheres que têm doença familiar relacionada com a coagulação, doenças como asma ou diabetes ou tensão alta não devem fazer a toma contínua com contraceptivo oral combinado».

«Para além disso, os extremos de peso (mulheres obesas ou muito magras) não toleram a toma contínua. Isto porque os estrogénios estão acumulados na gordura e quem tem muito peso tem estrogénios a mais e vice-versa. O desequilíbrio entre o estrogénio e a progesterona interfere na menstruação», acrescenta ainda o especialista.

Em que casos é a toma contínua da pílula recomendada por razões médicas?

«Quando a menstruação é muito dolorosa ou quando existem patologias que surgem apenas nessa altura, como as enxaquecas», explica Tereza Paula.

Não fazer uma pausa na pílula e não ter menstruação envolve riscos para a saúde?

Segundo Tereza Paula, «não há evidência médica e científica que nos diga que temos de fazer o intervalo de sete dias na toma da pílula. Esta pausa existe para mimetizar o ciclo menstrual e para as mulheres saberem se estão grávidas. Do ponto de vista médico não há necessidade de pausa, que só existe por questões culturais. As mulheres que tomam a pílula não têm menstruação, mas sim uma hemorragia de privação que só acontece porque há uma pausa na toma».

Uma opinião partilhada por Alexandre Lourenço. «É uma questão social e não clínica. Uma coisa é não menstruar devido a uma doença (como patologia no ovário, ou hipófise), outra coisa é porque se está a tomar um medicamento para esse efeito», sublinha o especialista. Em situações de toma contínua, «o que sabemos dos estudos é que, com algumas pílulas, após dois a três meses de toma contínua a mulher começa a perder sangue. Não é uma menstruação, são perdas de sangue», esclarece ainda o médico.

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