Ser mais forte do que o cancro da mama

O artigo da revista Prevenir que ganhou o Prémio de Jornalismo 2016, na categoria de imprensa, que a Liga Portuguesa Contra o Cancro instituiu em parceria com a farmacêutica Merck Sharp & Dome.

Todos os anos, em Portugal, seis mil mulheres são diagnosticadas com cancro da mama, indicam dados da Liga Portuguesa Contra o Cancro. Quando detetados numa fase inicial, 70 por cento dos casos são tratáveis, mas «os estudos demonstram que a maior parte das doentes não consegue deixar de pensar no diagnóstico como uma sentença de morte. Hoje, felizmente, os tratamentos do cancro da mama oferecem a possibilidade de cura em muitos casos e uma taxa de sobrevivência muito grande, de muitos anos», contou-nos Luzia Travado, presidente da Sociedade Internacional de Psico-oncologia.

No Mês Internacional do Cancro da Mama, que se assinala anualmente em outubro, com o contributo de vários especialistas, a Prevenir reuniu, ao longo de várias páginas, ferramentas emocionais e ao nível do estilo de vida que, a par dos avanços da ciência, ajudam a mulher e a sua família, a construir a resiliência necessária para enfrentar e ser mais forte do que a doença. Um imperativo sempre atual face àquela que é uma das patologias que a generalidade das mulheres mais teme.

As respostas às dúvidas que surgem após o diagnóstico

Luzia Travado, psicóloga clínica especialista em psico-oncologia, explica como partilhar e gerir emocionalmente a notícia. Estas são as respostas a algumas das principais dúvidas com que as mulheres se confrontam nesta fase:

- O que é normal a mulher sentir ao saber que tem cancro da mama?

Inicialmente, fica em choque, porque é um acontecimento indesejado, inesperado e um território ameaçador. Depois vem o medo (uma reação normal perante uma ameaça) e a ansiedade, que são influenciados também pelo que a mulher já vivenciou no caso de familiares ou amigos que passaram por situações oncológicas.

A mulher sente-se entre a vida e a morte e questiona-se. Será que vou sobreviver, será que vou conseguir suportar isto? E agora? Os meus filhos? O meu marido? Não queria estar a fazer isto à minha família... Também é normal sentir revolta, sobretudo no caso das doentes mais jovens. Mas o grande problema é fazer-se uma elaboração catastrófica da doença.

- O que pode ajudar a superar o choque, o medo e a ansiedade?

Antes de mais, a pessoa deve informar-se e perceber qual é o enquadramento e a fase da doença no seu caso. A maior parte das doentes é diagnosticada numa fase precoce, o que lhes possibilita o máximo de expetativa de sobrevivência e de cura. Para alguém que não conhece nada sobre a doença oncológica e pode estar a pensar que está condenada a morrer, ter noção dos dados reais do seu caso é essencial para redimensionar a notícia.

A equipa médica deve ajudá-la a perceber que, sim, tem um diagnóstico, mas que também tem um plano de tratamento e pode haver solução. É essencial prepará-la para o que se segue e a mulher deve esclarecer as suas dúvidas, porque isso dá segurança e ajuda a reduzir a imaginação negativa: quem tem medo e não está informado acaba por imaginar o que não tem, criando sofrimento.

- Deve ter acompanhamento psicológico especializado?

O acompanhamento psicológico especializado justifica-se sempre que exista sofrimento psicológico persistente. Por exemplo, no caso de mulheres que ficam muito presas à ideia de catástrofe (sentem-se sempre sob ameaça), o acompanhamento psicológico ajuda a racionalizar e a corrigir esse pensamento que causa e aumenta o sofrimento, mas cuja informação é enviesada, porque, na verdade, a probabilidade de tudo correr bem é superior.

É preciso reduzir esse pensamento à sua real probabilidade, o que se consegue através de técnicas cuja eficácia já foi provada. Em outros casos, a mulher pode pensar que vai perder a oportunidade de fazer tudo aquilo que queria e que não vale a pena fazer projetos, passando a negligenciar a sua vida. Nessas situações, é importante ajudar a pessoa a deixar de estar focada no que perdeu e a dirigir o foco para o que tem.

O tratamento psicológico não é um acessório de luxo no tratamento oncológico, é antes uma necessidade, porque também tem impacto a nível dos resultados clínicos das pacientes. Estudos [a dez anos] feitos em mulheres com cancro da mama demonstraram que as mulheres em estados depressivos de desespero e perda de esperança tinham menos anos de vida do que as mulheres que se conseguiam adaptar ao problema.

Uma pessoa que aceita e que se adapta, que encara a adversidade como um problema que tem uma solução e não como uma montanha esmagadora, tem uma qualidade de vida muito melhor do que aquela que está bloqueada e não faz ou não acredita em nada.

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