Sabe (mesmo) tudo sobre a SIDA?

Mais de 30 anos depois do VIH-1 ter sido descoberto por cientistas do Instituto Pasteur, a doença tornou-se crónica e deixou de assustar. Mas continuam a existir crenças erradas sobre a patologia que importa desmistificar

AIDS

Os anos vão passando mas existem crenças que ainda não foram totalmente desmistificadas. Ainda hoje persistem ideias erradas sobre a principal epidemia do século. Se pensa que este problema só afeta os outros, o que não sucede, continue a ler... «Em Portugal estão oficialmente notificadas cerca de 40 mil pessoas infetadas com o vírus de imunodeficiência humana (VIH). Tem havido uma estabilização, mas continuam a surgir casos todos os dias», lamenta Fernando Ventura, infecciologista.

«Há uma epidemia dos divorciados, pessoas que com 40 a 50 anos têm novos parceiros sexuais e se infetam», sublinha o especialista que, entre 2000 e 2003, presidiu à Comissão Nacional de Luta Contra a Sida. Para se modificar comportamentos, «tem que haver uma educação global para a saúde desde jovem e que envolva pais, professores e família», afirma. Pedimos-lhe que clarificasse algumas ideias comuns e erradas sobre esta infeção:

- Os seropositivos não transmitem a infeção

«A Sida é apenas um estádio terminal da infeção pelo VIH que, ao longo dos anos, provoca uma exaustão gradual do sistema imunitário e faz com que o vírus aumente. Quando existem menos de 200 células de defesa CD4 e cargas virais elevadas, dizemos que a pessoa tem SIDA, sobretudo se tiver uma infeção oportunista», explica o especialista.

«Mas quem é seropositivo para o VIH pode ser infetante praticamente desde o dia em que é infetado até ao último, embora haja fases em que pode sê-lo mais ou menos, depende se toma precauções e se faz ou não a terapêutica», refere Fernando Ventura.

- Evitar contactos sexuais com pessoas infetadas é a melhor proteção

«Primeiro, ninguém se coíbe de ter relações sexuais seja com quem for, se tiver vontade. Depois, ninguém sabe quem tem VIH ou não, muitas vezes nem os próprios infetados», explica. Uma pessoa que contraiu a infeção há um mês, nunca fez exames, não tem sintomas e está em fase de seroconversão, com uma carga viral extremamente elevada, tem um risco elevado de infetar alguém.

Assim, em relações sexuais ocasionais, a atitude correta é pensar que todos estão infetados até prova em contrário e tomar sempre medidas preventivas. Pessoas lúcidas e informadas não são infetadas, os outros deixam-se infetar», acrescenta.

- Homossexuais e toxicodependentes têm maior probabilidade de serem infetados

«A probabilidade de contrair a infeção é a mesma para todos os que têm comportamentos de risco. A epidemia surgiu em 1982 em grupos muito específicos. Na altura, chamava-se doença dos quatro H (hemofílicos, homossexuais, haitianos e heroinómanos) e pensou-se que estava localizada àquelas bolsas epidemiológicas», refere Fernando Ventura.

«Esta ideia tem sido desmitificada lentamente, mas o estigma prevalece erradamente. Hoje, mais de 50 por cento das novas infeções anuais em Portugal ocorrem em heterossexuais, os homossexuais têm dez a 12 por cento e os toxicodependentes por via endovenosa que, em 2000, eram quase 60 por cento, são 20 a 30 por cento», acrescenta.

- O teste ao VIH é muito caro e só pode ser feito por pessoas em risco

«Quando presidi à comissão, foi criada uma rede nacional de CAD, centros de aconselhamento e deteção precoce do VIH. Existe pelo menos um centro por distrito e os testes são gratuitos, anónimos, confidenciais e voluntários. As pessoas não têm que se identificar e, se os resultados forem positivos, têm apoio psicológico e são orientadas para serviços especializados. Os médicos de clínica geral e medicina familiar também estão cada vez mais sensibilizados para, se for o caso, oferecerem o teste aos doentes», esclarece.

- Em África é que ainda se morre de Sida. Cá é só uma doença crónica

«Se seguida precocemente por um médico especializado que atue de forma correta e com os fármacos indicados, a infeção pelo VIH pode ser controlada e as pessoas infetadas podem ter uma esperança de vida similar à das não infetadas. Mas, mesmo com uma recuperação exaustiva do sistema imunitário e uma limitação da replicação do vírus, mantém-se uma ativação imunológica e inflamação não infecciosa que pode condicionar uma senescência precoce. Por exemplo, patologias tumorais podem ter maior probabilidade de ocorrer nas pessoas com VIH», desmistifica o infecciologista.

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