Os novos distúrbios alimentares

Problemas dos tempos modernos que podem vir a ser classificados como doenças

Não estão ainda classificados como doenças mas refletem novas alterações no comportamento alimentar a que deve estar atenta. Embora as causas exatas ainda não sejam conhecidas, sabe-se que a pressão social que existe no sentido da magreza tem um peso fulcral no desencadear e na prevalência da maioria dos distúrbios alimentares.

«Grande parte dos distúrbios alimentares ocorrem após dietas que visam a perda de peso, com restrições exageradas que acabam por desregular o comportamento alimentar ao nível do hipotálamo [zona do sistema nervoso central que regula a fome, a saciedade e as emoções]», revela António Roma Torres, psiquiatra, especialista em perturbações do comportamento alimentar.

Contudo, ressalva que «não se pode ignorar a pressão social que desperta, muitas vezes, sentimentos de culpa e insatisfação pessoal». Ao mesmo tempo, acrescenta ainda, «a cultura da alimentação não acompanhou a maior sedentarização da sociedade moderna, o que fez disparar os casos de obesidade em crianças e adultos», refere ainda o especialista.

Ortorexia

Começa com uma tentativa inocente de comer mais saudavelmente até se transformar numa obsessão pela comida saudável. Os ortoréxicos têm uma preocupação muito exagerada com a toxicidade dos produtos alimentares. Mantêm uma dieta muito rígida e, em alguns casos, usam a autopunição quando cometem deslizes, geralmente através de uma alimentação rigorosa, jejuns e exercício físico.

As escolhas alimentares podem tornar-se de tal forma restritivas, tanto em variedade como em calorias, que podem acarretar défices nutricionais. Geralmente perdem a capacidade de comer de forma intuitiva, estão sempre preocupados com o grau de toxicidade que cada um dos alimentos que ingerem pode ter e dispendem grande parte do seu tempo a planear as refeições. Podem também tornar-se socialmente isolados porque planeiam a sua vida em função da comida.

Seguir uma dieta saudável não quer dizer, contudo, que tenha ortorexia e não há nada de errado com a preocupação de comer saudavelmente. De acordo com a National Eating Disorders Association (EUA), só se pode falar em ortorexia quando essa preocupação ocupa um tempo significativo do seu dia, gera sentimentos de culpa sempre que se desvia da dieta que considera saudável e/ou está a afetar a sua vida social.

Permarexia

Define uma preocupação excessiva com o valor calórico dos alimentos. Quem sofre de permarexia está constantemente a saltar de dieta em dieta, sem controlo médico. Vivem obcecados com as calorias ingeridas e acham que tudo o que comem é gordura. São especialmente influenciados pelas dietas ditas famosas, feitas pelas celebridades, que tentam seguir à risca.

Ocorre, geralmente, em mulheres com baixa auto-estima que não se sentem confortáveis com o seu peso. Alguns especialistas acreditam que a permarexia pode ser o início de um distúrbio alimentar mais grave como a anorexia e a bulimia. A preocupação em conhecer e experimentar vários tipos de dietas, a obsessão pelas calorias dos alimentos que consomem e a diminuição permanente do peso, devido ao efeito das dietas praticadas, são os principais sinais de alarme que denunciam um caso de permarexia.

Pregorexia

Embora não seja ainda reconhecido por todos os especialistas e seja extremamente raro, é um comportamento de risco que pode surgir durante a gravidez. Refere-se à preocupação excessiva em controlar o ganho de peso, durante o período gestacional e pode colocar em risco a saúde do bebé.

De acordo com o Royal College de Obstetric and Gynecologist (Inglaterra), uma alimentação incorreta e exercícios intensos na gravidez aumentam o risco do bebé nascer com sobrepeso, um fator de risco para problemas como doenças cardíacas e atrasos no desenvolvimento cognitivo, na idade adulta.

O risco de desenvolver pregorexia é maior em mulheres com história clínica de distúrbios alimentares. O foco excessivo na contagem de calorias, o hábito de saltar as refeições e a prática de exercício físico em excesso são os sinais de alarme mais comuns.

Apetite noturno

As pessoas com síndrome de alimentação noturna não têm, geralmente, apetite durante a manhã e consomem a maior parte das calorias diárias após o jantar e à noite, acordando várias vezes para comer lanches ricos em hidratos de carbono. Na maioria, são pessoas com excesso de peso e obesidade, contudo, pode ocorrer em pessoas com o peso saudável e, nestes casos, o apetite noturno pode persistir durante meses ou anos, levando à obesidade.

Na sua origem está a insónia que provoca alterações nas hormonas que regulam o apetite, mas também o stress, a ansiedade e a depressão que, por sua vez, perturbam o sono. A falta de apetite durante o dia, principalmente ao pequeno-almoço e a fome súbita durante a noite são os principais indicadores da síndrome de apetite noturno.

As pessoas que sofrem deste tipo de perturbação alimentar podem ter dificuldade em adormecer e manter o sono e, normalmente, arrependem-se do que comem durante a noite, revelando tensão, tristeza e sentimentos intensos de culpa e vergonha.

Alimentação seletiva

Não se inclui na definição tradicional de um distúrbio alimentar, pois quem tem este tipo de comportamento com a comida não tem o objetivo de atingir um determinado peso corporal. As pessoas com alimentação seletiva limitam a sua alimentação a um número muito restrito de alimentos que pode causar grandes deficiências nutricionais, com graves consequências no futuro como problemas cardíacos e ósseos.

Ao contrário do que acontece em distúrbios alimentares como a anorexia ou a bulimia, neste tipo de comportamento, as escolhas alimentares não são feitas com base no conteúdo calórico dos alimentos. Os investigadores ainda não sabem o que impulsiona este tipo de comportamento mas alguns especialistas acreditam que pode estar relacionado com tendências obsessivo-compulsivas. Outros dizem que também pode derivar de associações negativas com determinados alimentos, com origem na infância.

As pessoas com alimentação seletiva, em vez de terem um grupo de alimentos que preferem evitar, têm, antes, pouquíssimos alimentos que são capazes de comer. Não gostam da aparência ou do cheiro dos alimentos que evitam (a maioria) e dizem que é o próprio organismo a rejeitá-los. Por razões ainda desconhecidas, parecem gostar muito de sal (as batatas fritas são, geralmente, um dos poucos alimentos que comem) e não comem frutas e legumes. Tendem a evitar eventos sociais que envolvam comida e/ou inventam desculpas para não comerem.

Onde pode procurar ajuda

Consulte um especialista, se suspeitar que sofre de alguma destas alterações do comportamento alimentar. «Mesmo que não tenha os principais sintomas daquelas que são consideradas as doenças psiquiátricas, nomeadamente a anorexia nervosa (perda de peso abaixo de 17,5 de Índice de Massa Corporal) e a bulimia nervosa (episódios de vómitos provocados e/ou abuso de laxantes ou diuréticos), deve procurar um psiquiatra», recomenda o especialista António Roma Torres. Os casos mais ligeiros podem ser aconselhados pelo médico de família ou psicólogo, com experiência clínica em perturbações do comportamento alimentar.

Texto: Sofia Cardoso

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