Doença Renal Crónica: Está em crescimento e pode afetar 800 mil portugueses

Entrevista a João Frazão, Médico Nefrologista, professor universitário e Diretor Clínico da Diaverum
SAPO Saúde: O que é a doença renal crónica?
João Frazão: A doença renal crónica, também chamada de insuficiência renal crónica, consiste numa doença caracterizada pela perda progressiva da função renal. Os rins deixam lentamente de desempenhar as suas funções habituais. Nas fases mais avançadas os portadores desta doença necessitam de realizar regularmente um tratamento de substituição da função renal que poderá ser a hemodiálise, diálise peritoneal ou transplante renal. 
A principal função dos rins é a correção de perturbações na composição e volume dos fluídos corporais, que ocorrem como consequência da ingestão alimentar, metabolismo e fatores ambientais, sendo também, responsáveis pela produção de enzimas e hormonas. A insuficiência renal crónica é uma doença provocada pela deterioração lenta e irreversível da função renal. Como consequência da perda de função, existe retenção no sangue de substâncias que normalmente seriam removidas pelo rim e excretadas na urina. O rim também tem funções hormonais, nomeadamente, produção de eritropoetina, hormona essencial à formação de glóbulos vermelhos, e a ativação da vitamina D, indispensável à saúde do osso.

Por que é que é importante fazer um diagnóstico precoce? 
JF: As duas principais causas de insuficiência renal crónica são a hipertensão arterial e a diabetes. A prevenção e o controlo destas duas doenças pode ter um impacto muito marcado na redução do número de doentes com insuficiência renal e na progressão da doença para os estadios mais avançados, com necessidade dos tratamentos de substituição da função renal (hemodiálise, diálise peritoneal e transplantação renal). A insuficiência renal é nas suas fases precoces uma doença assintomática, tal como a hipertensão arterial (e por vezes a diabetes tipo 2). Neste contexto as campanhas de informação aos cidadãos e as campanhas de rastreio da doença são muito importantes porque podem identificar os doentes com doença renal crónica precoce e podem também identificar os doentes em risco. Em qualquer destes casos, a intervenção terapêutica precoce pode evitar o desenvolvimento da lesão renal ou diminuir muito a progressão da doença renal para as suas fases mais avançadas com necessidade de diálise. 

É doloroso? 
JF: Não. A insuficiência renal crónica não se caracteriza por sintomatologia álgica (dolorosa). A maioria dos doentes com insuficiência renal crónica não apresentam sintomas durante uma grande parte da evolução da sua doença. Só nas fases avançadas de doença é que aparecem sintomas. A insuficiência renal crónica manifesta-se clinicamente de forma inespecífica durante uma grande parte da sua evolução. O denominado síndrome urémico, na sua expressão mais exuberante manifesta-se com fadiga, anorexia, perda de peso, prurido, cãibras musculares, pericardite, edema pulmonar, anemia, alterações do metabolismo mineral, alterações sensitivas e da concentração. Se a insuficiência renal não for detetada e tratada atempadamente pode evoluir para o coma e morte.

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