Como conseguir descansar (mais) durante o sono

As respostas de um neurologista português

O que faz o cérebro enquanto dormimos? Que impacto tem na nossa saúde? Se calhar, não sabia mas neurónios funcionam como uma ficha e as fibras musculares como uma
tomada eléctrica.

Através da ligação entre ambos na placa motora e do
transporte de diferentes produtos bioquímicos (os neurotransmissores)
é processada a informação necessária ao funcionamento
dos músculos.

Este fenómeno deriva directamente do sono. É
enquanto dormimos que o cérebro mais trabalha, no sentido
de acumular energia para que, ao acordar, esteja apta a agir fisicamente. Um sono insuficiente, quer em qualidade, quer em
quantidade, pode conduzir a uma deficiente estimulação muscular.


Como resultado, o tecido muscular torna-se flácido, perde
potência, elasticidade e força. Para saber como os mecanismos do sono afectam a sua saúde
física e mental, não perca a conversa com Ângelo Soares, neurologista
e autor do livro «O Sono – Efeitos da sua privação sobre as
defesas orgânicas», editado em Portugal pela Lidel.

O que é que nos obriga a dormir?

A nossa própria estrutura anatómica e
fisiológica cerebral. Como qualquer
máquina, o organismo tem necessidade
de parar de vez em quando e descansar.
Mas não se trata propriamente de descansar,
já que é justamente quando estamos
a dormir que o cérebro trabalha mais.

Que actividades são realizadas pelo
cérebro quando dormimos?

Durante o sono, o cérebro desliga-se do
ambiente exterior e analisa todas as suas
funções e estruturas anatómicas, bem como
as secreções que precisa de libertar. Por
outro lado, aproveita para reparar lesões que
podem aparecer e complicar a actividade
cerebral. Quanto à memória, esta vai compilar
os dados da informação amontoados,
vai catalogá-los e armazená-los correctamente
de modo a conseguir,
em qualquer
altura, recuperar e usar essa mesma
informação.

Que substâncias são libertadas?

A acetilcolina é um dos elementos fundamentais
para o sono e não só. É um
neurotransmissor que existe nos terminais
de neurónios praticamente em todo o
corpo, incluindo o cérebro. É segregada ao
ritmo do relógio biológico, conforme as
necessidades e a finalidade, da mesma
forma que a noradrenalina ou norepinefrina
e outras. À medida que umas
aumentam, as outras diminuem. É um
equilíbrio constante.

Qual o papel dos neurotransmissores?

Qualquer função do cérebro é elaborada
numa célula cerebral e, através dos neurotransmissores,
propaga as suas secreções ao
longo dos neurónios. É assim que se gera
um efeito no neurónio terminal num
determinado órgão, seja o coração, o pulmão
ou o intestino. Durante o sono, há
secreções que são diminuídas e outras
aumentadas, de modo a poderem ser
lançadas em circulação.

O relógio biológico corresponde
a uma parte específica do cérebro?

Sim, é regulado por duas pequenas estruturas
ou núcleos do tamanho de cabeças de
alfinete que estão situadas sobre o hipotálamo,
uma zona na base do cérebro,
por
baixo do cruzamento dos dois nervos
ópticos, o quiasma óptico. Em cada um desses núcleos há cerca de 20 neurónios que
regulam o funcionamento de todos os
órgãos. Do batimento cardíaco aos movimentos
respiratórios, passando pela função
urinária,
tensão arterial e temperatura
intra-cerebral
e do corpo, tudo é ali
regulado e acertado pelo relógio
biológico,
em função dos ciclos circadianos, ciclos
iguais, com a duração de cerca de 24 horas.

Que factores podem alterar esse
ritmo?

A exposição ao stress e o número de horas
de exposição à luz e à sombra, além de
muitos outros factores físicos e mentais,
podem alterar esse ritmo circadiano. Pode
atrasar ou acelerar para 25 ou 23 horas
e todo corpo se adapta lentamente a essa
pequena modificação, como nos casos de
trabalho por turnos, viagens longas de
avião (jetlag) ou outros. No entanto, o
ritmo tem tendência a auto-regular-se,
voltando às 24 horas.


Veja na página seguinte: É verdade que o sono de noite é mais
reparador?

É verdade que o sono de noite é mais
reparador?

Sem dúvida. A melatonina, uma hormona
que funciona como neurotransmissor, é
segregada de noite.

Também a luz do sol
tem uma influência fundamental sobre o
sono.

Quando entram os primeiros raios de
luz pela janela, a pessoa acorda e começa a
funcionar. Quando ele se põe, desencadeiam-se actividades ao nível do cerebelo e
do tronco cerebral, que induzem o sono.
Por isso, o ideal é dormir entre as 11 da
noite ou meia-noite e as sete ou oito da
manhã.

Nas pessoas que trabalham à noite,
há uma adaptação desses horários?

Não, mas pior é a sucessão de turnos
diferentes. Por exemplo, se uma pessoa
trabalha da meia-noite às quatro da manhã
e, na semana seguinte, tem que dormir a
partir dessa hora. Todas as pessoas com este
tipo de funcionamento mantêm-se eficazes
durante oito a dez anos. Depois disso,
muitas acabam por consultar psiquiatras.

Por que é que algumas pessoas
precisam de dormir menos?

A pessoa é estruturalmente preparada para
ter ciclos sucessivos de 24 horas, mas pode
decidir dormir cinco ou 12 horas em cada
um deles. No entanto, qualquer das situações
vai conduzir à modificação das estruturas cerebrais, reflectindo-se em todas as
funções do organismo após alguns anos.

Que impacto tem o sono no sistema
imunitário?

É fundamental dormir oito horas. Se isso
não acontecer, os neuromoduladores destinados
a determinada função não seguem
na via normal para o sono. E assim começa-se, lentamente, a criar uma situação de
desvio da saúde, até que surgem as queixas
e os sintomas.

Que patologias podem surgir
associadas ao défice de sono?

Desde doenças vasculares, a cardio-respiratórias,
mentais e até o cancro. Claro
que não se pode dizer que o cancro
é
derivado da falta de sono, mas a falta ou
privação do sono, voluntária ou involuntária,
contribui para criar condições de
desenvolvimento para certas doenças, nas
áreas em que a pessoa é mais susceptível.

Dormir bem pode prevenir a doença
de Alzheimer?

É difícil dizer se quem dorme pouco vai ter
doença de Alzheimer ou se é esta que
conduz a uma falta de sono, mas as duas
coisas estão interligadas. No entanto, para
se ter esta doença é preciso ter condições
prévias, nomeadamente genéticas, e a falta
de sono será apenas um sintoma.

Que alterações no sono podem ser
indício de doença?

Essa fronteira é indefinida, até porque as
pessoas têm sensibilidades diferentes à
doença. Mas há sinais de alarme como a
fadiga física e mental, dificuldades de
concentração, reacção e aprendizagem,
perda de eficácia no trabalho,
irritabilidade
e até tendência para a violência.

Um problema de sono pode ter
origem exclusivamente neurológica?

Pode haver razões, as mais variadas, a
provocar alterações do sono, desde alterações
cardíacas,
cardio-respiratórias,
hepáticas, do rim, até um tumor cerebral
ou um cancro. Por exemplo, o primeiro
sintoma do carcinoma do pâncreas está
relacionado com falta de sono.

Que consequências imediatas tem o
défice de sono na aparência física?

Além das olheiras, a pele fica mais seca,
descamativa e mais flácida e há tendência
para a perda de massa muscular e sua compensação com gordura. Resultado:
a estrutura anatómica e a aparência
alteram-se.

Como actuam os medicamentos
indutores do sono?

Têm efeitos ao nível dos neurotransmissores,
ou seja, alteram a estrutura normal
e provocam em geral um sono superficial.
Se a pessoa tem condições para isso,
engrena num sono normal, o que é pouco
frequente. Se não as tem, não atinge um
sono profundo. Quem toma este tipo de
medicamentos de forma recorrente não
tem a sensação de sono reparador ou
descansado, porque o sono tipo três ou
quatro e o sono REM, não são produzidos.


Veja na página seguinte: É possível compensar ao fim-de-semana o défice de sono acumulado?

É possível compensar ao fim-de-semana o défice de sono acumulado?

A pessoa não consegue recuperar o que
perdeu, embora tenha a sensação que sim.
O organismo humano não reage à custa
de matemáticas.

Portanto, o ciclo de sono
deve processar-se naturalmente. Este
conselho pode não parecer realista, mas não
vejo outro que possa resolver o problema
sem acarretar riscos para a saúde.


O percurso de Ângelo Soares

Médico especialista em Neurologia e
Neuro-Oncologia, com estágios em Paris,
Londres e Nova Iorque, Ângelo Soares
criou o Serviço de Neurologia do IPO
do Porto, de que foi director até 2004. Actualmente, é consultor de Neurologia
e director da Clínica de Memória,
no Porto, onde dá consulta de Neurologia
e se dedica ao estudo e divulgação
de temas como o sono, a memória
e o envelhecimento. É o autor do livro
«O Sono – Efeitos da sua privação
sobre as defesas orgânicas»,
publicado em Portugal pela editora Lidel.

Texto: Rita Miguel com Ângelo Soares (médico especialista em neurologia e neuro-oncologia)

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