Canábis terapêutica?

Os resultados da investigação de um dos médicos mais famosos do mundo

Um dos médicos mais mediáticos do mundo, Sanjay Gupta, investigou, mudou de opinião e defende agora o uso medicinal da canábis. Terá razão?

Ao longo do último ano, Sanjay Gupta, médico especialista em neurocirurgia e correspondente do canal televisivo de informação CNN, viajou pelo mundo para realizar o documentário
«Weed – Erva».

Para realizar este trabalho, num processo que se prolongou por vários meses, entrevistou médicos, especialistas, produtores de canábis e pacientes que recorriam a esta planta, a que também se chama de marijuana, para tratar problemas de saúde e ficou impressionado com o que descobriu e com as informações que conseguiu.

Tanto que, no início de agosto, publicou um artigo no site da estação de televisão norte-americana. «Muito antes de eu iniciar este projeto, consultei literatura científica acerca do uso medicinal da marijuana nos EUA e achei-a muito pouco convincente. A partir do que li, era difícil apoiar o seu uso médico. Disse-o publicamente num artigo que escrevi para a revista Time, em 2009. Estou aqui agora para pedir desculpa», escreveu na altura.

A mudança de opinião

Sanjay Gupta assume que, até ao início do ano passado, ainda não tinha pesquisado o suficiente sobre o tema. «Não revi a investigação realizada noutros países por laboratórios mais pequenos que estavam a fazer descobertas notáveis e desvalorizei o testemunho de pacientes cujos sintomas melhoraram através da canábis», sublinha.

Em vez disso, diz ter sobrevalorizado o facto de no seu país a marijuana ser considerada uma substância de grau 1, a categoria das drogas mais perigosas, sem consentimento para uso médico e com o mais elevado risco de abuso e dependência. O que agora conclui é que «o risco de dependência (9%) é inferior ao do de consumo de álcool (15%) e, em alguns casos, a canábis é mesmo o único tratamento que resulta», enfatiza.

Casos de sucesso

No documentário, Sanjay Gupta conta o caso de Charlotte Figi, uma menina de cinco anos que sofre de epilepsia grave. Com 300 ataques epiléticos por semana, o seu normal desenvolvimento estava comprometido. Após experimentar todos os tratamentos disponíveis sem sucesso, só foi possível reduzir drasticamente o número de episódios para dois a três por mês através de um extrato de canábis.

Para os pais, o facto de viverem no Colorado, um dos cerca de 20 estados norte-americanos em que o uso terapêutico da planta foi legalizado, permite-lhes manter um tratamento continuado.

Os efeitos terapêuticos

Os mais claros são a «diminuição de náusea e vómitos associados à quimioterapia, estimulação do apetite em doentes terminais e/ou com SIDA e diminuição da pressão intraocular em caso de glaucoma», refere Ana Franky Carvalho, médica interna de Cirurgia Geral. No entanto, atualmente «assiste-se a um aumento na investigação feita na área dos canabinoides (compostos presentes na canábis) para o tratamento de várias doenças, como certos cancros, obesidade, dor crónica, doenças inflamatórias e doenças dermatológicas», acrescenta.

Os riscos

O principal entrave ao uso médico da canábis prende-se com os riscos associados ao seu consumo regular. Como explica Ana Carvalho, «o organismo reage de forma imprevisível à toma de canabinoides, podendo ocorrer efeitos como crises psicóticas, de ansiedade ou depressão». Por outro lado, há o facto de, ao ser legalizada, tornar-se acessível para fins recreativos.

«Não me agrada o facto de saber que esta droga poderá estar disponível aos mais jovens. Cérebros em desenvolvimento (até aos 25 anos) são mais suscetíveis aos potenciais danos da marijuana. Pensa-se que o consumo regular durante a adolescência conduz a um decréscimo permanente do quociente de inteligência (QI) e aumenta o risco de psicoses», afirma Sanjay Gupta que, no entanto, defende que «esta preocupação não deveria manter os pacientes, que dela dependem, sem tratamento» e diz não ter encontrado «um único caso documentado de morte por overdose de marijuana».

Em Portugal

Atualmente, está autorizado pelo Infarmed um medicamento com extratos de canábis. «Trata-se de um spray bucal com indicação para o tratamento da rigidez muscular na esclerose múltipla, quando outros medicamentos não são eficazes», refere Ana Carvalho. João Semedo, médico pneumologista e líder do Bloco de Esquerda, partido que apresentou um projeto de lei para a legalização do uso de canábis em Portugal, acredita que isso poderá acontecer em breve.

«Se até no país que lidera a estratégia proibicionista da canábis a nível mundial, os EUA, os políticos perceberam que não podiam deixar milhões de doentes reféns das consequências de uma escolha política, é normal que outros países sigam o exemplo.

O uso medicinal da canábis já não é perseguido na Áustria, Canadá, Alemanha, Holanda e Israel. Recentemente, também a França e a República Checa aprovaram a utilização medicinal. Em Portugal, tenho conhecimento de médicos, quer particulares quer no Serviço Nacional de Saúde, que indicam o consumo de canábis para o tratamento da dor, na maior parte dos casos em oncologia», conta.

O que é a canábis?

É uma planta (Cannabis sativa) com mais de 400 compostos, dos quais se destacam o tetrahidrocanabinol (THC), o principal composto psicoativo e o canabidiol (CBD), sem efeitos psicotropicos e responsavel por muitos dos efeitos terapeuticos. A mesma planta pode ser cultivada para ter maior concentracao de um composto ou de outro. O THC e o CBD atuam sobretudo ao nivel do sistema nervoso central, nas regioes cerebrais envolvidas na memoria, desenvolvimento cognitivo, percecao da dor e coordenacao motora, e tambem na pele.

A opinião dos especialistas:

«Alguns tratamentos funcionam num doente e não noutros»

«Quando um médico prescreve um medicamento espera que tenha um benefício significativo e um risco mínimo. a informação sobre este benefício/risco é um dos aspetos centrais da ciência médica e obtém-se em estudos com muitos doentes (ensaios clínicos), em que se testam e comparam diversos medicamentos», defende António Vaz Carneiro, diretor do Centro de Estudos de Medicina Baseada na Evidência, da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa.

«Não discuto os exemplos dados por Sanjay Gupta sobre a pretensa eficácia em situações clínicas específicas, mas discordo das afirmações de causalidade que ele atribui à marijuana. A afirmação de que uma substância que foi benéfica no tratamento de um doente isolado o será noutros parecidos requer ensaios clínicos apropriados que confirmem esse benefício», acrescenta.

«Na ausência desses estudos, não é cientificamente legítimo afirmar a vantagem terapêutica de uma intervenção isolada, já que o efeito pode ter sido absolutamente ocasional e ser ineficaz (ou até mesmo perigoso) nas centenas de outros doentes que tomem esse fármaco. Assim, defendo que não podemos, nesta altura, utilizar a marijuana fora das indicações médicas aprovadas», refere ainda.

«Os estudos e testemunhos devem suplantar o preconceito»

«Sempre defendi que a canábis, tal como qualquer outra substância, só deve ser usada para fins medicinais quando existam estudos científicos que atestem os seus benefícios para o tratamento de doenças ou alívio de sintomas. Esses estudos já existem, nomeadamente acerca dos seus efeitos analgésicos no tratamento da dor em determinadas patologias», afirma João Semedo, médico pneumonologista e coordenador do Bloco de Esquerda.

«Eles mostram não apenas os benefícios do uso terapêutico da canábis nesses casos, mas também a sua vantagem em relação aos medicamentos disponíveis, no que diz respeito aos efeitos secundários para a saúde e qualidade de vida dos doentes. Creio que esses estudos, a par dos testemunhos de doentes que recorrem à canábis onde esse uso foi legalizado, mas também os que são obrigados a fazê-lo à margem da lei em países como o nosso, deviam valer mais do que o preconceito do legislador nesta matéria», sublinha ainda.

O perfil de Sanjay Gupta

Médico neurocirurgiao, integrou em 2001 a equipa de reportagem da CNN que fez a cobertura dos ataques terroristas do 11 de setembro e que investigou os casos de antrax iniciando uma carreira fulgurante nos media. Fez a cobertura da guerra do Iraque, do furacao Katrina, do terramoto no Haiti e do tsunami no Japão, conquistando varios premios jornalisticos.

É autor dos livros «A fonte da juventude» e «Enganar a morte» (Lua de Papel). É editor de saúde da CNN, tem uma coluna na revista Time e é ainda consultor do programa «60 Minutes» do canal de televisão CBS.

Texto: Vanda Oliveira com Ana Franky Carvalo (médica interna de Cirurgia Geral, do Hospital de Braga), António Vaz Carneiro (diretor do Centro de Estudos de Medicina Baseada na Evidência, da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa) e João Semedo (médico pneumologista e coordenador do Bloco de Esquerda)

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