A dieta das enzimas

O regime do médico da família real japonesa avaliado por uma nutricionista portuguesa

Conheça a teoria do médico da família real japonesa, fruto de 50 anos de experiência clínica, para reduzir o risco de doenças como cancro, diabetes, obesidade e doenças cardíacas.

Hiromi Shinya. O seu nome é japonês, mas vive há mais de 50 anos nos Estados Unidos da América, onde chegou em 1963, já formado em medicina, para fazer o internato de cirurgia no Centro Médico Beth Israel, em Nova Iorque.

Aí especializou-se em endoscopia gastrointestinal, tendo sido o primeiro médico a realizar uma cirurgia ao cólon sem incisão abdominal, conta na introdução do livro «A Enzima Prodigiosa» (Arena), que chegou recentemente ao mercado português. Desde então, diz, «examinei estômagos e cólones e estudei a história alimentar de mais de 300 mil pacientes», «comecei a compreender os mecanismos da saúde» e «tornei-me capaz de trabalhar com o corpo e de o ajudar a ultrapassar as doenças», refere.

É nesta experiência acumulada que se baseia a sua tese de que existe uma «chave para a saúde», a que chama «enzima prodigiosa». Segundo o autor, enzimas «são proteínas catalisadoras que se formam dentro das células dos seres vivos», incluindo plantas e animais, e que «estão envolvidas em todas as actividades inerentes à manutenção da vida, como a assimilação, transporte, excreção, desintoxicação e fornecimento de energia». Embora «não esteja claro como se formam», há enzimas de muitos tipos, cada com uma função específica.

Por exemplo, «a enzima digestiva amílase, presente na saliva, só reage aos hidratos de carbono» e «pensa-se que esses tipos são criados para responder a necessidades do corpo», afirma. É assim que surge a ideia de «enzima prodigiosa», como se lhe refere. «Acredito que há uma enzima-mãe, sem função determinada, que até se transformar numa enzima específica que responde a uma necessidade particular, tem o potencial de se converter em qualquer enzima», diz.

A chave da saúde

As enzimas-mãe «desempenham um papel fundamental na capacidade de cura do corpo», defende o autor. «Tudo indica», afirma, «que não existe uma quantidade determinada para cada uma das milhares de enzimas existentes. Pelo contrário, a enzima-mãe transforma-se numa enzima específica quando é solicitada e formada onde é necessária», realça o especialista.

O problema, refere, é que o número de enzimas que um ser vivo pode produzir durante a vida está predeterminado. Neste sentido, conclui, «a minha teoria, desenvolvida ao longo de anos de prática clínica e observação», é que «a saúde depende da conservação, por oposição ao esgotamento, das enzimas-mãe», afirma ainda.

Abordagem holística

Hiromi Shinya reconhece que a existência da enzima-mãe é «por agora, apenas uma teoria», mas afirma haver «muitas evidências clínicas de que podemos fortalecer as nossas características gastrointestinais seguindo uma dieta que estimule as enzimas e um estilo de vida que não esgote a enzima-mãe». Este estilo de vida, que diz adotar há anos, assenta em «sete segredos de ouro».

Regras que «apresentaram resultados clínicos de zero por cento de reincidência de casos de cancro» nos seus doentes. A alimentação é central, mas a proposta é abrangente. Porque, afirma, «o que determina a saúde, a prazo, é a súmula diária de coisas como a alimentação, o exercício, a água, o sono, o trabalho e o stresse», sublinha ainda.

Biológicos pouco cozinhados

O autor admite que «não é possível determinar o número de enzimas dos alimentos», mas advoga que «quanto mais frescas são as verduras, a fruta, a carne e o peixe, mais enzimas terão», pelo que os melhores «são os que crescem em terra fértil, rica em minerais, sem recurso a aditivos ou fertilizantes químicos e que são ingeridos logo após a colheita». Salvaguarda ainda que «a maioria das pessoas não pode comer tudo cru», mas diz que as enzimas são sensíveis ao calor, pelo que recomenda cozinhar a vapor e não aquecer os alimentos a mais de 48º C.

10 a 15% de proteína animal

Segundo o autor, devemos ingerir, no máximo, 80 a 100 gramas de proteína animal, já que as proteínas das plantas contêm muitos dos aminoácidos essenciais, embora não todos, com a vantagem de as plantas terem muita fibra e nenhuma gordura animal. O consumo de proteína animal, diz, deve ser ocasional, com preferência para o peixe (sobretudo os mais pequenos, pois os maiores têm mercúrio).

Devemos preferir as aves (frango, peru e pato em pequenas doses) e limitar ou evitar a carne de vaca, borrego, vitela e porco. «Não é boa ideia comer animais com alta temperatura corporal porque essa gordura solidifica na corrente sanguínea. É muito melhor comer animais com uma temperatura corporal baixa, como o peixe, porque o óleo de peixe se liquefaz no corpo e limpa as artérias em vez de se depositar nelas», justifica. Os ovos são permitidos.

85 a 95% de vegetais

Para obter aminoácidos essenciais suficientes, o autor recomenda que 50 por cento de cada refeição deva ser constituído por gramíneas integrais, como arroz, trigo e pão integral, cevada, cereais e leguminosas (feijão de soja, grão-de-bico, lentilhas, feijão branco, preto ou manteiga). Os vegetais verdes e amarelos (batatas, cenouras, batata-doce, beterraba) e os vegetais marinhos devem representar 30 por cento de cada refeição. Cinco a 10 por cento deve ser fruta, sementes e nozes. Leite e queijo de soja, leite de arroz e de amêndoa são outras fontes de proteína admitidas.

Oito a dez copos de «água boa» por dia

A «água boa», como lhe chama, não tem «substâncias perigosas para o corpo humano» e é «capaz de eliminar os radicais livres através da antioxidação», mantendo o corpo «com um pH alcalino ótimo». Para isso, deve conter um equilíbrio adequado de minerais (cálcio, magnésio, sódio, potássio e ferro) e ter um pH superior a 7,5 ou ligeiramente alcalino. O autor recomenda beber água antes de cada refeição e não a acompanhá-la (se tiver de o fazer, apenas meio copo), para não diluir as enzimas digestivas, bem como beber um a três copos de água ao levantar e dois ou três, 30 minutos a uma hora antes da refeição.

Jejum antes de dormir

Deixar de comer e beber quatro a cinco horas antes de se deitar à noite é uma das regras propostas por Hiromi Shinya. «Quando o estômago está vazio, há um alto nível de ácido forte que mata a helicobacter pylori, assim como outras bactérias más, criando um ambiente intestinal equilibrado que conduz à cura do próprio corpo, à resistência e à imunidade», explica. Em caso de fome, pode-se comer uma pequena peça de fruta uma hora antes de dormir, já que será digerida rapidamente.

A evitar ou reduzir Laticínios, café, doces e açúcar, álcool; gorduras (sobretudo margarinas), óleos e fritos lideram a lista de alimentos a evitar ou a moderar em termos de consumo. O sal de mesa deve ser substituído por sal com características minerais. O chá verde japonês, chinês e inglês devem ser limitados a uma ou duas chávenas por dia.

O veredito da nutricionista Patrícia Segadães

«Segundo o autor, factores como a alimentação, o exercício, o sono e o stresse são determinantes para a saúde, uma ideia defendida pela maioria dos especialistas da área», começa por referir a nutricionista Patrícia Segadães. «A novidade é a existência de enzimas-mãe importantes no processo de cura e que, segundo Hiromi Shinya, devemos preservar, dado o seu número estar alegadamente pré-determinado. As teorias apresentadas precisam, antes de mais, de suporte científico, o que não se verifica em muitos dos pressupostos», considera a especialista.

«É pouco prudente fazer afirmações tão fortes como a de que a sua abordagem resulta em zero por cento de casos de reincidência de cancro, sem apresentar provas científicas da sua eficácia. O próprio autor reconhece que a existência de tais enzimas é, por agora, apenas uma teoria. Será, por isso, importante olhar para os pressupostos descritos como uma tese que não tem, ainda, validação científica», adverte Patrícia Segadães.

«No entanto, não duvido que a grande maioria das pessoas com o padrão alimentar ocidental poderá obter melhorias na saúde e condição física, seguindo as regras descritas. Mas ressalvo que jejuns longos, como as quatro a cinco horas propostas, não beneficiam ninguém e podem ser perigosos para pessoas com diabetes ou pré-diabetes, entre outras», acrescenta ainda a nutricionista portuguesa.

Texto: Rita Miguel com Patrícia Segadães (nutricionista)

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