Chavutti Thirummal

Uma técnica de massagem, realizada com os pés, com origem na medicina ayurvédica.

A Chavutti Thirummal tem sido praticada na Índia desde tempos imemoriais. Recorrendo a óleos específicos, os terapeutas usam uma corda, para se equilibrar e gerir o nível de pressão, enquanto efetuam uma massagem corporal com o pé.

A massagem Chavutti Thirummal é uma arte de massagem típica de Kerala, no sul da Índia, encontrando- -se associada a três outras tradições indianas: Kalaripayat (arte marcial indiana), Kathakali (dança clássica indiana) e Ayurveda (sistema de medicina indiana). Esta técnica de massagem com o pé teve a sua origem entre os praticantes destas duas artes afins (arte marcial e dança clássica).

Ambas as artes adotaram e utilizam a técnica da Chavutti Thirummal como forma de manter o corpo flexível e forte ao mesmo tempo, evitando assim lesões durante a sua prática. A palavra Kalari significa ginásio, payat significa duelo. Kalaripayat é uma arte que tradicionalmente vem passando de geração em geração, desde há séculos, e baseia-se no ideal duma mente sã num corpo são.

Desde cedo, juntamente com os seus estudos académicos, os alunos de Kerala eram iniciados nas artes do condicionamento físico. As aldeias na Kerala medieval tinham um kalari (ginásio), um templo e um tanque para banho público – uma rara combinação entre religião, higiene, saúde pública e autodefesa.

Este sistema, apesar de ser originário do estilo de vida hindu, era partilhado por todos, hindus, muçulmanos e cristãos, independentemente da religião e casta, como se de um legado comum se tratasse. Atualmente, esta técnica está mais desenvolvida, tendo ganho a sua própria identidade face aos benefícios que proporciona.

Origens e lendas
Segundo uma lenda, a Chavutti Thirummal nasceu de uma dança do deus hindu Shiva, o Senhor da Destruição e da Transformação. Um mestre kalari era, e ainda hoje é, muito respeitado na sociedade, pelo conhecimento secreto e detalhado que detinha dos pontos vitais, com o qual tinha o poder de matar e ressuscitar uma vida apenas pressionando alguns pontos nos sítios certos.

Esses pontos vitais, conhecidos, no corpo físico, como marmas, podem ser compreendidos como janelas para a força vital (prana) e uma ligação direta ao corpo energético (pranamaya kosha) que, segundo a filosofia do yoga, é constituído por um segundo corpo, uma rede de canais de prana – para além do corpo físico. Os pontos marma são centros energéticos sobre estes canais (prana nadis), e um cuidado que incida diretamente sobre estes pontos tem o poder de equilibrar o fluxo de energia nos prana nadis.

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Segundo a lenda, mesmo uma leve pressão sobre os prana nadis pode ter consideráveis efeitos no corpo. Dependendo do grau da lesão, o resultado pode ser perda de sensação, de fala e de audição, desordens psicológicas, paralisia, estados de coma ou mesmo morte. No entanto, os marmas servem também como pontos de reanimação e cura.

A estimulação dos marmas é feita pelo toque, por uma suave pressão ou sob intervenção de uma pinça. Para isto, foram desenvolvidos quatro métodos diferentes de massagem no sistema kalari:

1. Kay Uzhichil

Massagem com as mãos para aplicar uma pressão leve;
2. Mushti Uzhichil

Massagem com os punhos para uma pressão média;
3. Kizhiuzhichil

Massagem com compressas contendo ervas medicinais;
4. Chavutti Thirummal

Massagem com o pé para uma pressão forte e máximo efeito.

Chavutti Thirummal
A massagem com os pés teve origens na tradição kalari, como parte integrante do seu treino, uma vez que ajuda a manter o corpo saudável, forte e flexível. A massagem ajuda a manter uma boa circulação sanguínea e a remover o excesso de gordura. Após a sua iniciação, os estudantes da arte marcial kalaripayat eram submetidos a um cuidado especial de massagem com óleos medicinais.

Durante 15 dias, os formandos seguiam um regime especial e disciplinado na sua rotina diária. Os corpos destes jovens eram, em primeiro lugar, completamente envoltos com uma mistura de óleo, ghee (manteiga clarificada obtida através da manteiga de leite de vaca e fervida em lume brando) e plantas medicinais e, de seguida, eram deitados no chão.

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Depois, o mestre, segurando com firmeza numa corda pendurada no teto, e com um pé apoiado no chão, esfregava todo o corpo dos jovens utilizando um dos seus pés, até sentir cada centímetro do corpo deslizante ao toque. De facto, Chavutti Thirummal é certamente uma forma de massagem bastante exigente, mas os seus benéficos efeitos ultrapassam largamente os esforços nela aplicados, produzindo o máximo alívio.

O seu efeito alcança não só o corpo físico, tornando-o mais forte, ágil e flexível, mas também o corpo energético, equilibrando o fluxo de prana nos canais vitais.

Benefícios
• Redução de tensões emocionais e musculares

• Regulação das funções do organismo

• Alívio de dores lombares, artrites e enxaquecas

• Redução dos sintomas de stress

• Estimulação da circulação sanguínea e linfática

• Aumento da mobilidade e flexibilidade das articulações

• Sensação global de relaxamento

• Acréscimo dos níveis de energia

• Ajuda no realinhamento postural

• Regulação do sistema imunitário

Testemunho
Prabhat Menon, um dos mestres exímios nesta arte, refere que: “Chavutti Thirummal tem uma tradição milenar. É uma forma fascinante de massagem com laços muito estreitos com o Kalaripayatt, a arte marcial de Kerala e com Kathakali, a dança clássica de Kerala. Embora tenha sido criada para proporcionar flexibilidade e força aos praticantes das artes marciais, desenvolveu-se como uma terapia completa só por si mesmo.

Esta técnica é, de facto, um delicado ato de equilíbrio com a corda. O pé do terapeuta literalmente dança sobre o corpo do cliente em vários padrões, o que requer uma enorme coordenação. O sucesso desta massagem depende da peripécia na aplicação do peso por parte do terapeuta, a sua proficiência com a corda e a sua sensibilidade nos pés, focando a sua intenção no alinhamento dos ossos e dos músculos. Após uma destas sessões, o corpo todo sente-se como se tivesse sido esticado e alongado, a par de uma agradável sensação de leveza e frescura”.

Técnica ou arte?

O terapeuta utiliza uma corda para se segurar e equilibrar enquanto desliza o seu pé com perícia sobre o corpo, contornando e aplicando pressões onde for preciso (sempre com a máxima concentração, coordenação e esforço físico), utiliza o seu peso para pressionar ou relaxar os músculos, trabalhando as “linhas de energia” ora com o calcanhar, ora com o arco do pé, ora com os artelhos quando necessário.

Esta massagem é executada como uma arte (parecida com o malabarismo), um ato delicado de equilíbrio e gestão de peso, onde se regula a cada instante a pressão sobre as partes do corpo por onde se passa, para que a pressão não seja nem demasiada nem escassa, uma tarefa difícil, dada a reduzida sensibilidade dos pés em relação às mãos.

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Em zonas mais sensíveis, como o abdómen e o rosto, muitas vezes, opta-se por massajar com as mãos, mas apenas se o cliente for muito sensível nessas mesmas zonas. A massagem Chavutti Thirummal será, talvez, entre todas as técnicas de massagem, umas das que proporciona níveis de pressão mais profundos com grande uniformidade no corpo do cliente.

Neste estilo de massagem, o terapeuta desliza o seu pé sobre o corpo do cliente, que deverá estar envolto em óleos específicos. Para que se possa equilibrar durante as manobras, o terapeuta apoiasse com um pé no chão e segura-se a uma corda presa no teto, enquanto desliza com o outro pé sobre o corpo do cliente.

É, portanto, a pressão do peso do terapeuta que provoca o relaxamento dos músculos e ativa o fluxo energético do cliente. Ao terapeuta desta técnica de massagem é exigida grande capacidade de coordenação motora, equilíbrio e preparação física, para além de grande sensibilidade na utilização dos seus pés e domínio do uso do peso do seu corpo para que possa gerar uma pressão adequada e uniforme.

Neste sentido, é recomendado que o terapeuta, antes de executar a massagem, faça alguns exercícios de alongamentos. Para além disso, é também ideal que este realize um treino regular, principalmente à base de alongamentos e de alguns exercícios que contribuam para a manutenção da força de braços e pernas.

Sobre alguns músculos é ainda possível realizar manobras específicas com os dedos dos pés, nas quais, com o músculo posicionado entre o hálux (dedo grande do pé) e o 2.º dedo do pé se executa um deslizamento que segue esse mesmo músculo. Os calcanhares também podem ser utilizados.

O terapeuta usa o seu pé para deslizar sobre todo o comprimento do corpo, criando um movimento contínuo e profundo e trabalhando a partir das pontas dos dedos dos pés. Usando os pés, o corpo e a respiração correta o terapeuta pode realmente atingir uma maior profundidade e precisão durante a massagem, particularmente aquando da realização de manobras mais específicas e, logo, mais intensas.

Isto resulta num cuidado de profunda reparação onde nenhum músculo, tendão ou ligamento é esquecido. Tradicionalmente, esta massagem realizada com o pé é efetuada também sobre o rosto, para energizar, rejuvenescer e ativar a circulação, apesar de na Europa ainda não estar muito enraizada esta prática.

No entanto, uma vez que esta é uma zona particularmente sensível, sempre que são realizadas manobras no rosto o terapeuta deve ter uma atenção redobrada no que diz respeito aos níveis de pressão exercidos, para além de que deve apenas recorrer a leves movimentos realizados com a ponta dos dedos dos pés. Algumas manobras manuais poderão ainda ser realizadas no final da sessão. Isto inclui o trabalho nas costas e pescoço, ombros e cabeça.

Porquê com o pé?

Os praticantes desta técnica usam o pé ao invés das mãos pois, com o pé, é possível cobrir todo o corpo com um único movimento. Para além disso, o pé possibilita uma massagem mais profunda através de movimentos longos e firmes, desde o pescoço até aos tornozelos, sendo que a sua energia comparativamente à das mãos enraíza muito mais e é muito mais profunda. No entanto, é necessário recordar que com o pé pouca pressão já é muita.

Para o terapeuta pode parecer leve mas para o cliente já pode ser demasiada. É muito diferente da energia que se aplica com as mãos. Não existe um treino específico para ganhar mais sensibilidade no pé.

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Segundo o terapeuta Atul Mulji, “só a prática regular desta massagem permite ir percebendo e aumentando gradualmente essa sensibilidade”, referindo ainda que “certamente que quando comecei a praticar esta massagem tinha muito menos sensibilidade do que aquela que tenho hoje. Foi preciso colocar as mãos nos pés”.

Procedimento recomendado

Inspirado no regime tradicional e disciplinar, ao qual eram submetidos os formandos da arte marcial kalaripayat, os terapeutas recomendam que, para atingir resultados notórios ao nível da vitalidade e da flexibilidade, esta massagem seja realizada diariamente durante 15 dias ininterruptos.

Nas primeiras três sessões, o terapeuta faz séries de três repetições por cada movimento e vai aumentado de forma gradual até sete repetições por movimento. De seguida, começa de novo a diminuir até terminar novamente com uma série de três repetições. A duração da massagem também varia, entre um mínimo de 45 minutos (nas sessões de 3 repetições) e um máximo de 1h15 (nas sessões de 7 repetições).

Resumindo:

•Dia 1 a 3

Séries de três repetições por cada movimento

•Dia 4 a 6

Séries de cinco repetições por cada movimento

•Dia 7 a 9

Séries de sete repetições por cada movimento (atinge o pico)

•Dia 10 a 12

Séries de cinco repetições por cada movimento

•Dia 13 a 15

Séries de três repetições por cada movimento

Indicações e contraindicações

Os praticantes afirmam que esta técnica é especialmente indicada para quem pretende aumentar a sua flexibilidade e livrar-se de tensões, sendo preventiva, ao invés de curativa. Esta massagem proporciona, à semelhança da massagem tailandesa, melhorias no desempenho de atletas, bailarinos, praticantes de artes marciais e, em geral, em todas as pessoas que precisam de ter um corpo mais flexível e desbloqueado, pleno de vitalidade, desde que não apresentem qualquer contraindicação para a massagem.

Chavutti Thirummal ajuda ainda a reduzir a rigidez muscular, sendo este um dos benefícios óbvios ao trabalhar tão profunda e exaustivamente sobre o corpo desta maneira. Aumenta a circulação dos níveis de oxigénio para os tecidos promovendo desta forma uma desintoxicação suave. Em suma, esta massagem é ótima para quem queira, por exemplo, realizar um cuidado mais profundo, a um nível que as mãos não permitam.

Em relação às contraindicações, devido ao seu caráter profundo, é mais indicada a pessoas saudáveis. Assim, não se recomenda esta massagem a doentes oncológicos, a pessoas que possam estar febris, debilitadas ou a experimentar algum tipo de mal-estar. Para além disso, não deve ser realizada imediatamente após uma refeição, devido aos movimentos de pressão que serão exercidos, nomeadamente na zona do abdómen.

Texto: Atul Mulji, instrutor de yoga, terapeuta de ayurveda e thai-yoga massagem
Edição: Patrícia Velez Filipe
Terapeuta: Atul Mulji
Modelo: Tiago Botelho
Fotografia: Paulo Neto
Agradecimentos: Brahmi Oriental Wellness, Parede

*Este artigo foi escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico.*

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