Estas meninas, em muitos casos americanas, aparecem nas redes a gritar de alegria perante um creme hidratante e "rejuvenescedor" ou a implorar às mães por um corretivo. "É este que eu vi no vídeo, quero, quero!", diz uma delas.

Há polémica nas redes, principalmente pelos preços dos produtos, um dos cremes preferidos das meninas "tiktokers" ultrapassa os 73 euros.

"Como estas meninas podem gastar o equivalente ao meu salário em produtos de beleza?", pergunta um vendedor da Sephora nos Estados Unidos. 

A marca, do grupo francês LVMH, não respondeu às perguntas da AFP. 

Aparentemente, o fenómeno está limitado por enquanto aos Estados Unidos, onde uma das "Sephora Kids" mais conhecidas é North West, de dez anos, filha de Kim Kardashian.

“Bonecas"

Os produtos partilhados nestes vídeos, apesar de serem embalados em cores suaves, contêm substâncias agressivas como o retinol, destinado a peles maduras, apontam especialistas.

"Cada vez mais crianças utilizam cosméticos para adultos. Muitos dos pais que vão à consulta nem sabem que existe um risco e confiam mais nos influenciadores de beleza do que no próprio médico", disse à AFP o dermatologista americano Danilo Del Campo. 

Danilo tem percebido "um aumento de consultas por reações cutâneas e problemas derivados do uso indevido destes produtos (…) a pele jovem é mais delicada e mais sensível a irritações". 

A pele funciona como uma barreira e devemos evitar danificá-la com produtos inadequados ou expô-la precocemente aos produtos químicos contidos nestes cosméticos, alerta o dermatologista.

Del Campo também mencionou "problemas de autoestima em crianças que sentem necessidade de corrigir defeitos que nem sequer existem". 

No TikTok, algumas mães afirmam que é apenas uma "brincadeira". 

Para Michaël Stora, psicanalista especialista em práticas digitais, "estas meninas não brincam com bonecas como seria de esperar na sua idade, as bonecas são elas". 

Stora garante que o fenómeno era previsível no contexto atual de crianças expostas nas redes sociais desde o nascimento. 

Solène Delecourt, professora de Berkeley e especialista em desigualdades sociais, acredita que estes vídeos "podem reforçar e perpetuar uma representação muito estereotipada de meninas e mulheres". 

"Elas ainda não são mulheres, mas estão sujeitas a uma intensa pressão social", destaca.

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