E se?...

Há uns tempos, convidaram-me para moderar uma palestra sobre temáticas relacionadas com a gestão de crianças, englobando áreas como a organização do dia-a-dia e algumas regras para fazer dos miúdos mais rebeldes crianças com rotinas e regras. E eu, apesar de me ter sentido bastante grata pelo convite, não deixei de me surpreender com o mesmo. Tendo já sido criticada, por alguém próximo, por ser demasiado permissiva com os meus filhos, como é que haveria de dar dicas sobre como educar os filhos dos outros?

Na altura, partilhei a novidade com algumas amigas próximas que imediatamente aplaudiram a ideia. Segundo elas, eu tenho duas raparigas fantásticas e dois meninos que, apesar de reguilas e irrequietos, são simplesmente fantásticos. Mas, mesmo assim, eu fiquei com a impertinente dúvida do “e se?”. Até porque, nestas coisas, eu sou algo radicalista nas análises que faço e dou por mim, muitas e muitas vezes, a observar os meus filhos como se me fossem estranhos. E as conclusões nem sempre batem certo com a opinião das minhas amigas.

Ora vejamos:

  • Os meus filhos mais novos brigam muito. Tanto andam aos abraços e a dizer que se amam, como rapidamente se envolvem numa nuvem de murros, pontapés e puxões de cabelos.
  • Eles nem sempre obedecem às ordens. Ou, pelo menos, à primeira e sem refilar. Conseguir que eles vão tomar banho pode tornar-se, muitas vezes, numa batalha dantesca.
  • As minhas filhas mais velhas dão respostas tortas. Bom, pelo menos tentam dar – porque, como diz uma amiga minha, elas recuam nas tentativas mal percebem “aquele” meu abrir de olhos que normalmente antecede um raspanete bíblico.
  • As refeições nem sempre são feitas na santa paz do Senhor. Todos querem ter espaço de antena para falar, atropelando-se em relatos que, vindos em simultâneo de quatro bocas distintas, apenas me fazem perceber coisas como: “o professor de matemática deu-me suficiente no teste”, (…) “mas ele às vezes bate-me”, (…) “perguntou-me se quero namorar com ele”, (…) “estou a pensar aceitar”.
  • A minha despensa é um verdadeiro bunker, invadido sistematicamente por pessoas pequenas que procuram encher o estômago com mimos mesmo antes das refeições.
  • Do mesmo modo, esses mimos provocam sempre um mar de migalhas no chão da minha sala, levando-me a ter praticamente como melhor amigo o aspirador que me acompanha há tantos anos.
  • “Estudar é uma seca, mãe”. Não preciso desenvolver, certo?
  • Os mais novos aprenderam o sentido dos palavrões. E acham que dizê-los de surra, assim de quando em vez, tem tanta piada quanto o mais hilariante espetáculo dos Monty Python.
  • A expressão de comando que mais resulta cá em casa é a tradicional “um, dois, três”. No “um” eles observam-me, no “dois” contêm-se, no “três” lá obedecem.

Resumidamente, foi tudo isto que me fez pensar em que raio poderei eu passar a outros pais. Claro que aqui estamos só a analisar o lado mau da coisa. Em oposição, estas quatro crianças têm corações enormes, são extremamente desapegadas do lado material da vida, são de uma meiguice desmedida e fazem todos os dias as tarefas domésticas que lhes atribuí. E são para mim, apesar de tudo aquilo, os melhores filhos do mundo.

Naqueles momentos em que os observo de longe e percebo que há ali coisas em que tenho de trabalhar, lembro-me sempre do que o “nosso” pediatra me disse há uns tempos:

- Os seus filhos acatam sempre as ordens e obedecem ao que diz?

- Não, nem sempre.

- Perfeito, porque isso seria muito mau sinal!

Alda Benamor

artigo do parceiro: Alda Benamor

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