Deixai os meninos voar

Não sou fundamentalista, mas assumo a determinação nas minhas crenças (sendo que – atenção! - as minhas crenças de ontem podem ser radicalmente diferentes das que terei amanhã). Leva-me isto a uma crença que, pelo menos até agora, não mudou. A de que devemos mesmo deixar os meninos voar.

Há dias, dei por mim a dizer a uma amiga que já ganhei urticária aos livros e aos textos que proliferam por este mundo mediático fora, incomodada com o facto de insistirem em me dizer como é que eu devo ser e o que é que eu devo fazer para conseguir ser feliz. Confessei-me cansada de balelas e banalidades que acreditam que o que me faz feliz é exatamente o mesmo que traz felicidade ao meu vizinho de lado. Mas rapidamente me contive quando percebi que também eu o faço todos os dias. Quando converso com os meus amigos, quando dou conselhos a alguém e até mesmo quando aqui escrevo. Não sou fundamentalista, mas assumo a determinação nas minhas crenças (sendo que – atenção! - as minhas crenças de ontem podem ser radicalmente diferentes das que terei amanhã).

Leva-me isto a uma crença que, pelo menos até agora, não mudou. A de que devemos mesmo deixar os meninos voar.

Os meus pais tentaram, até ser possível, resguardar-me de todos os males do mundo. Nunca saía à rua sem um agasalho, nunca me atrevia a um gelado depois das refeições, nunca me arriscava a sair com um colega que eles não conhecessem e nunca (mas nunca!) podia sequer pensar em passar a noite em casa de uma amiga. Se isto me trouxe mazelas? Nenhuma. Tirando a questão de, até aos 15 anos, eu ter sido a miúda mais atada de que se pode ter ideia.

Não me apetece que os meus filhos sejam atados até quase à idade adulta. Tal como também não me apetece (qual má mãe!) ter de me preocupar com os atacadores desapertados e com o copo de água que eles querem pedir na pastelaria do bairro. O atacador desapertou? “Aperta-o”. Queres um copo de água? “Vai pedi-lo”.

Pronto, pode não ser sempre assim, que, feliz ou infelizmente, tenho um coração de manteiga e há dias em que me sabe pela vida dar-lhes colo como se fossem ainda bebés pequenos. Mas não me vejo a ter filhos que, a partir de certa idade, não conseguem atravessar sem ajuda uma estrada ou simplesmente fazer as camas todas as manhãs.

Há dias, li um artigo intitulado “deixe o seu filho sofrer” que rapidamente arrancou comentários sôfregos de muitos pais e mães. O artigo defendia que, sendo o sofrimento uma inevitabilidade da vida, não devemos proteger em demasia os nossos filhos nem impedi-los de experimentar caminhos errados. Seja esse caminho uma simples queda aquando dos primeiros passos ou a dor de um coração partido na adolescência. Algo muito óbvio, mas que nós, seres maternais, muitas vezes temos dificuldade em discernir quando a nossa cria se encontra na beira de um precipício (por mais pequeno que ele seja).

A verdade é que, por mais que todos nós tenhamos sofrido na vida, essas lágrimas penosas foram essenciais para sermos o que somos e, mais importante ainda, para sabermos muito bem o que queremos e o que dispensamos sem hesitar. Eu confesso que não trocava por nada nenhuma das dores que senti no corpo ou das lágrimas que chorei ao longo da vida. Não me mataram. Fortaleceram-me.

Os meus filhos vão cair muito mais vezes do que aquelas que já caíram até hoje. E eu cá estarei, do seu lado, para tentar amparar as mais violentas. Mas as outras, aquelas que apenas esfolam um joelho na aprendizagem do caminho, assistirei de movimentos presos e de coração apertado, na crença absoluta de que aquele pequeno arranhão será essencial para a formação de adultos que (espero!) serão retos, íntegros e, sobretudo, dotados da larga experiência do riso e da dor – essencial para que eles saibam tomar as melhores decisões.

[mesmo que esses pequenos arranhões me causem flagelos de uma dor alucinante neste sensível coração de mãe.]

artigo do parceiro: Alda Benamor

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