Como vive uma família numerosa

O testemunho de uma família com cinco filhos

Consumir 25 litros de leite e 25 iogurtes líquidos por semana, um quilo de cereais ao pequeno-almoço, 16 pães tipo carcaça por dia e dois litros de sopa por refeição não é tarefa fácil para uma família. Necessita de uma organização quase empresarial. «Abastecer a nossa casa é quase como abastecer uma unidade hoteleira», graceja Noel Asseiceiro, de 37 anos, pai de cinco rapazes em idades compreendidas entre os três e os 12 anos.

Funcionário público, Noel casou, em 2000, com Rute, de 40 anos, técnica numa companhia de seguros, e a decisão de ter uma família grande não foi difícil de tomar. Orientados pelo amor e fé cristã e não pela condição financeira – na altura ainda com empregos instáveis e sem carro próprio – o casal sabia que queria ter filhos e a família tornou-se na sua prioridade. «Costumamos dizer que para ter uma família numerosa ou se está apoiado em Deus ou é profunda loucura e, no nosso caso, muitas vezes temos tanto de um como de outro. Questões como as propinas quando a rapaziada chegar à Faculdade assusta-nos um pouco, mas vivemos um dia de cada vez», diz Noel.

E este é o espírito que os mantém unidos. As medidas agora propostas pelo grupo parlamentar do PSD, se forem aprovadas serão muito bem-vindas, mas serão apenas uma gota no oceano. O casal não entende a razão pela qual há 40 e 50 anos, com as condições de vida bem piores, os casais tinham mais filhos do que agora. Noel Asseiceiro enumera as vantagens de ter uma família grande: nunca há monotonia, as surpresas são diárias, as refeições são sempre ricas em confraternização e a partilha e colaboração entre todos é bonita de se ver.

«Ter uma família numerosa até tem economias de escala: por exemplo, a roupa que foi comprada para o primeiro filho tem passado pelos irmãos, comprando-se muitíssimo menos roupa para os últimos filhos», explica. Mas as vantagens não acabam aqui. «Como vivemos num T4 que fica num 3º andar sem elevador, fazemos muito exercício a subir e descer escadas. Quando vamos às compras, entra em ação o carreirinho de formigas, e é ver os sacos chegarem ao destino com a colaboração de todos. Ou seja, com muitos filhos a vida é sempre uma festa e o stress do dia a dia é largamente compensado com as alegrias», afirma Noel Asseiceiro.

As barreiras com que se debatem, essas sim, são muitas. As principais prendem-se com os horários laborais e a distância a percorrer entre casa, emprego e escolas. A correria diária deixa pouca margem para atividades espontâneas. Por outro lado, a habitação é outro problema: é difícil encontrar casas grandes e as que há são dispendiosas. Também a rede de infantários privados tem custos incomportáveis e os que são comparticipados, além de se localizarem nos subúrbios, têm listas de espera e não possuem coeficientes de ponderação de família numerosa. «Pelo que, se não houver avós ou família disponível para acolher os pequenos, num casal onde trabalham os dois, torna-se missão quase impossível», remata Noel.

Uma medida fundamental para facilitar a vida a estes pais seria a reintrodução da prioridade de admissão de irmãos nas escolas de primeiro e segundo ciclo, que evitaria uma correria matinal a várias escolas. Este é o dia a dia de uma das raras famílias portuguesas que contribuem para a renovação das gerações e para a sustentabilidade futura do Estado Social. Atreve-se a seguir-lhes o exemplo?

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