Aquisição e desenvolvimento linguístico: Qual é prioritário? A fonética? A fonologia? Ou a sintaxe?

A comunidade em geral quando ouve que alguém faz terapia da fala entende que essa mesma pessoa, independentemente da idade, muito provavelmente não consegue dizer o ‘l’ e o ‘r’, ou o ‘lh’ ou ainda o ’z’, ou então todos estes e mais alguns… e mais do que isso, que terapia da fala é só para crianças. Bem, nenhuma das duas assunções é verdadeira!

Outro aspeto que se assume como uma verdade constante e inabalável é que essa mesma pessoa que apresenta qualquer tipo de ‘dificuldade em falar/comunicar’ em primeiro lugar precisa de dizer os sons de fala, como já referido o ‘l’ e o ‘r’… (i.e. fones - fonética) depois necessita de combiná-los (i.e. fonologia), em seguida irá produzir palavras (i.e. semântica), e por fim juntar as palavras (i.e. sintaxe). Também é frequente ‘todas as dificuldades’ serem atribuídas ao enorme saco da ‘maturação’. Ele/a fala ‘assim’ porque é imaturo/a – aguardemos pela maturação…

Bem, tudo isto tem/é um problema, porque a aquisição da fonologia e da sintaxe, ou seja, das diferentes regras e exceções que caraterizam as línguas no que concerne à ordem dos vários fonemas e vocábulos na palavra e na frase respetivamente têm uma data limite.

Simon Fisher e colegas (2009) encontraram evidência científica para o que defendia Lenneberg em 1967 o desenvolvimento linguístico tem bases biológicas e o desenvolvimento sintático e o fonológico têm uma agenda própria. Se por um lado, temos de estar expostos a um ambiente estimulante, por outro lado os processos de diferenciação e em seguida de generalização ‘têm prazo de validade’.

Temos linguagem verbal oral quando produzimos sílabas com diferenças fonológicas - i.e como os sons que produzimos a nível motor – fonética - se combinam de modo a produzir diferentes significados: “pá; pé; pó; pai; pia; pão; dá; dói; má; mãe...” começamos com uma silaba, duplicamos a mesma: “papa…” alteramos a acentuação: “papá…” juntamos duas sílabas diferentes: “pipa; pepa…” e estamos ao nível da aquisição fonológica. E ocorre em todo este processo uma quantidade incrível de conhecimento, desde a prosódia a formatos silábicos que são cruciais para o inicio da aquisição fonológica e que diferenciam a língua Portuguesa das demais.

MAS só com palavras ser compreendido pela outra pessoa a longo prazo fica difícil e é uma limitação. O combinar de palavras faz TODA a diferença: “dá pão; qué pai….” portanto outra aquisição e generalização é a ordem das palavras na frase: “pão pai dá”, “pai dá pão” – descodificamos ambas as sequências, mas uma delas tem características que facilitam o aceder ao conteúdo, porque ‘essas’ caraterísticas fazem parte da sintaxe da língua Portuguesa. Esta aquisição que passa por ‘aquele conhecimento’ implícito que temos para a nossa língua materna: ‘esta frase está bem e esta está mal, ainda que não saiba qual é a regra gramatical!’ tem data limite: entre os 7 e os 9 anos de idade deixamos de ter aptidão para adquirir sintaxe.

Mas, mais significativo do que tudo isto é a motivação que traz ao locutor a consequência de dizer algo como: “dá popó meu”… e o interlocutor dá! Quando em comparação com a produção de: “carro” pois nesta situação e ainda que em contexto, o interlocutor tem de ‘adivinhar’ se é: «ajuda-me a procurar o carro»; «onde está o carro?»; «quero o carro»;… o fluir da comunicação no dia-a-dia irá ser um reforço positivo constante.

Para finalizar, a aquisição linguística tem prioridades e sem dúvida a sintaxe é uma delas. Felizmente é passível de serem estimuladas em terapia da fala em simultâneo a sintaxe, a fonologia e a fonética.

Jaqueline Carmona

jaqueline.carmona@pin.com.pt

Terapeuta da Fala
Pós-graduada - European Clinical Fluency Specialization - Especialização em Perturbações da Fluência (Gaguez)/Linguista

PIN – Progresso Infantil

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