Dar às crianças pistas não-verbais sobre palavras aumenta o vocabulário

As pistas que os pais dão às crianças sobre as palavras podem fazer uma grande diferença nos seus vocabulários quando entram na escola, demonstra uma nova investigação da Universidade de Chicago.

Ao usarem palavras para referenciarem objetos no ambiente visual, os pais podem ajudar as crianças pequenas a aprenderem novas palavras, de acordo com um estudo conduzido pela Universidade de Chicago, nos EUA. Também explora a dificuldade de medição de pistas não-verbais para o significado das palavras durante as interações entre pais e filhos que estão a aprender a falar. Por exemplo, dizer: «Lá vai a zebra», enquanto se visita um jardim zoológico ajuda a criança a aprender a palavra «zebra» mais rapidamente do que dizer: «Vamos ver a zebra.»

 

Diferenças na qualidade de pistas não-verbais dos pais para crianças (o que as crianças podem ver quando seus pais estão a falar) explicam cerca de um quarto (22 por cento) das diferenças de vocabulários nessas mesmas crianças quando entram jardim-de-infância, os investigadores descobriram. Os resultados, sob o título «Qualidade da introdução precoce pelos pais prevê vocabulário da criança, três anos depois», publicados na edição atual da revista Proceedings of National Academy of Sciences.

 

«Os vocabulários das crianças variam muito em tamanho, no momento em que entram na escola», disse Erica Cartmill, autora principal do estudo e professora na Universidade de Chicago.«Uma vez que o vocabulário pré-escolar é um importante preditor de sucesso escolar posterior, esta variabilidade deve ser levado a sério e suas fontes compreendidas.»

 

Famílias de maiores rendimentos em pé de igualdade com famílias de menores rendimentos

«O que é surpreendente neste estudo éque o estatuto socioeconómico não tem impacto na qualidade. Pais de menor nível socioeconómico têm a mesma probabilidade de proporcionar experiências de alta qualidade aos seus filhos como eram os pais de estatuto mais elevado», afirmou Susan Goldin-Meadow, co-autora do estudo.

 

Embora os investigadores, ao longo dos anos, tenham acumulado evidência impressionante de que o número de palavras que as crianças ouvem – a quantidade de linguística – tem um impacto no desenvolvimento do vocabulário, a medição da qualidade do ambiente não-verbal – incluindo pistas não-verbais para o significado das palavras – tem-se mostrado muito mais difícil.

 

Para medir a qualidade, a equipa de investigação visionou vídeos de interações diárias entre 50 cuidadores primários, na quase totalidade as mães, e as crianças (de 14 a 18 meses de idade). As mães e as crianças, com origens sociais e económicas diversas, foram gravadas por períodos de 90 minutos, no seu dia a dia, em períodos de brincadeira e de outras atividades.

 

A equipa, então, mostrou excertos de 40 segundos desses vídeos a 218 adultos, com o som silenciado. Com base na interação entre a criança e os pais, os adultos foram convidados a adivinhar, em cada excerto, que a palavra mãe usava quando um «bip» era acionado no vídeo.

 

Um sinal sonoro pode ocorrer, por exemplo, no discurso silenciado de um pai para a palavra «livro» quando uma criança se aproxima de uma estante ou leva um livro para a mãe começar a contar uma história. Noutros excertos, os espectadores não foram capazes de adivinhar a palavra buzinada durante a conversa, já que havia poucas pistas imediatas para o significado das palavras. Excertos que continham palavras que eram fáceis de adivinhar forneceram pistas de alta qualidade para o significado das palavras.

 

Embora não houvesse diferenças na qualidade das interações baseadas nas origens dos pais, a equipa encontrou diferenças individuais significativas entre os pais estudados. Alguns pais forneceram pistas não-verbais sobre palavras apenas 5 por cento do tempo, enquanto outros forneceram pistas não-verbais durante 38 por cento do tempo, indica o estudo.

 

O estudo também constatou que o número de palavras que os pais utilizavam não estava relacionado com a qualidade das trocas verbais.

 

«Quantidade e qualidade iniciais representam diferentes aspetos na variação encontrada no vocabulário mais tardio», escrevem os autores. Por outras palavras, quanto os pais conversem com seus filhos (quantidade) e como os pais usam palavras em relação ao ambiente não-verbal (qualidade) fornecem diferentes tipos de informação para o desenvolvimento precoce da linguagem.

 

«No entanto, os pais que falam mais estão, por definição, a oferecer aos seus filhos mais palavras e quantas mais palavras uma criança ouve, o mais provável será que a criança ouça uma determinada palavra numa situação de aprendizagem de alta qualidade», acrescentam. Isto sugere que a vantagem de vocabulário das famílias de rendimentos mais elevados vem de uma maior quantidade de fornecimento de palavras, o que conduz a um número maior de aprendizagem de alta qualidade de palavras.

 

Fazer um uso eficaz de sinais não-verbais pode ser uma boa maneira de os pais colocarem os seus filhos no caminho de uma linguagem bem desenvolvida.

 

 

Maria João Pratt

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