As infeções do trato urinário na gravidez: a bacteriúria assintomática, cistite e pielonefrite

As infeções urinárias resultam da invasão e multiplicação de bactérias na urina e respetiva inflamação da bexiga e rins. A possibilidade do feto nascer prematuro ou apresentar baixo peso à nascença, tornam as infeções do trato urinário complicações relevantes no período gestacional.

A Urocultura constitui o teste de referência para o diagnóstico da bacteriúria assintomática, isto é, presença de bactérias na urina sem sintomas de infeção urinária na grávida e deve ser realizada logo no primeiro trimestre da gravidez. Nos casos clínicos positivos devem ser realizadas colheitas periódicas de urina para detetar recidivas ou persistências, dado que esta situação clínica pode evoluir para pielonefrite. Cerca de 20 a 40% das bacteriúrias assintomáticas não tratadas e/ou acompanhadas evoluem para pielonefrites.

Parte significativa das infeções urinárias na gravidez são cistites (1-2%) não complicadas por Escherichia coli, espécies de Klebsiella, Enterobacter e Proteus. São infeções urinárias que não representam risco de desenvolvimento para pielonefrite.

A pielonefrite aguda é uma infeção das vias urinárias altas e dos rins, geralmente consequência de uma infeção bacteriana ascendente através dos ureteres desde a bexiga até aos rins. A maioria dos casos de pielonefrite aguda ocorre durante o segundo e terceiro trimestre da gravidez, quase sempre após uma bacteriúria assintomática não diagnosticada ou não tratada. Em 80% dos casos de pielonefrite aguda, a Escherichia coli é o agente patogénico responsável pela infeção.

Clinicamente os sintomas são febre, arrepios, náuseas, vómitos, dor lombar intensa e constante, podendo igualmente a paciente apresentar sintomas urinários baixos e está associada a complicações materno-fetais graves. Nestas circunstâncias as mulheres grávidas podem desenvolver anemia aguda, bacteriemia, insuficiência respiratória, contrações uterinas, hipertensão, pré-eclâmpsia e risco aumentado de rutura prematura de membranas e parto prematuro.

O diagnóstico clínico de pielonefrite aguda é confirmado pelo crescimento de bactérias na urocultura (> 100.000 unidades formadoras de colónias/ml) com realização do antibiograma, de forma a avaliar a sensibilidade aos antibióticos, ajudando na prescrição correta do tratamento. O teste de urina com tiras reagentes e o exame microscópico da urina são igualmente exames laboratoriais de despiste. As mulheres grávidas com pielonefrite aguda têm geralmente piúria ou um diagnóstico positivo de esterase leucocitária, muitas vezes acompanhado de hematúria microscópica ou presença de hemoglobina.

O tratamento da pielonefrite requer hospitalização da grávida.

Por Maria José Rego de Sousa, Médica, Doutorada em Medicina, Especialista em Patologia Clínica

Maria José Rego de Sousa, Médica, Doutorada em Medicina, Especialista em Patologia Clínica

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