Mutismo Seletivo – o silêncio das palavras

Imagine que lhe pedem para ler este texto para um conjunto de pessoas que conhece, e outras que não conhece tão bem. Imagine que fica tão assustada com a ideia, que simplesmente não consegue, começa a sentir um enorme desconforto e a sua cabeça é inundada de pensamentos negativos! Imagina as críticas que lhe irão fazer, as perguntas que lhe irão colocar. E a sua vontade é fugir e acabar com a ansiedade que está a sentir

Imagine que este momento se repete todos os dias e que, por mais que os outros lhe peçam para falar, por mais que o deseje… simplesmente não o consegue fazer, a não ser em determinados contextos.

Isto é o que acontece com quem sofre de Mutismo Selectivo. O Mutismo Selectivo é caracterizado pela incapacidade de falar em contextos em que tal é natural (por exemplo, na escola). A ausência de linguagem ocorre apesar de a criança ser capaz de o fazer noutras situações. Uma criança com Mutismo Selectivo pode, por exemplo, não falar com professores ou colegas de escola, mas falar fluentemente em casa. Esta dificuldade não depende do controlo voluntário da criança nem diminui de forma espontânea – é uma manifestação de ansiedade extrema que a criança sente em situações sociais.

O Mutismo Selectivo não tem origem em qualquer situação traumática e a maioria das crianças/jovens que desenvolvem este quadro manifesta-o sobretudo aquando da sua entrada na escola. No entanto, as crianças com Mutismo Selectivo apresentam, desde sempre, determinadas características: vergonha e dificuldade em iniciar interacção social, quer com pares, quer com adultos; pouca expressividade emocional (o que não quer dizer que não sintam ou não se emocionem); rigidez, ou seja, dificuldade em flexibilizar rotinas ou as interpretações que fazem das situações ou em negociar; dificuldade na regulação da frustração (quando algo não acontece como anteciparam, desorganizam-se e ficam ansiosas).

Esta rigidez revela-se um obstáculo importante à terapia, porque estas crianças têm mais dificuldade em generalizar estratégias, ou seja, se uma situação é trabalhada segundo uma determinada lógica, elas associam essa lógica aquela situação, mas não necessariamente a outras semelhantes. A rigidez ajuda a perpetuar o problema: muitas vezes, mesmo quando a ansiedade diminui para níveis normais, a criança mantém o mutismo, porque, naquele contexto, já a conhecem sem falar. A sua “rigidez” pode, portanto, fazer com que o sintoma persista, mesmo que a ansiedade que o causava perca intensidade. Nestes casos, é crucial trabalhar também essa rigidez.

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