Medo do escuro e outros temores

A imaginação infantil é rica, mas nem sempre é tranquilizadora. Para uma criança, os medos são muito reais e devem ser abordados como tal.

Pode ser o papão debaixo da cama, uma bruxa no guarda-fato ou o vento a bater nas vidraças. A criança choraminga e não consegue adormecer, especialmente se o quarto estiver escuro e mesmo se os pais garantirem que tudo está bem. A questão é que, para ela, não está.

 

O medo é um sentimento comum a todos os seres humanos. O que o diferencia nos adultos e nas crianças é que os primeiros têm ferramentas racionais e emocionais para o compreender e combater e as segundas ainda não.

 

Para além disso, a imaginação fértil que as carateriza torna difícil, muitas vezes, distinguir a verdade da fantasia e, como todos sabemos, é à noite que os sentimentos menos positivos parecem crescer.

 

 

Acreditar para ajudar

 

Quando uma criança diz que tem medo do escuro, ou de qualquer outra situação, é importante acreditar nela. Até pode não conseguir explicar o que a está a incomodar tanto, mas vai certamente sentir-se melhor se perceber que os adultos são seus aliados e vão fazer tudo para remediar a situação.

 

Uma sombra no quarto, o som da canalização ou o trânsito a passar lá em baixo na rua transformam-se facilmente em fantasmas ou bichos maus, em especial se a cabeça não estiver ocupada com outras preocupações mais palpáveis. E, felizmente, na esmagadora maioria dos casos é isso mesmo que se passa na mente das crianças.

 

Chamá-la tonta ou medrosa não ajuda e pode até agravar a situação. Tudo porque, para além do medo, a criança pode também sentir-se envergonhada ou diminuída. Tornar claro qual é o motivo do medo e mostrar solidariedade é uma alternativa bem melhor. É que os monstros não existem mas o temor, esse, está presente.

 

 

Cuidado com os estímulos

 

Algumas experiências quotidianas – absolutamente naturais para os adultos – podem ter efeitos significativos na imaginação infantil. Há, por isso, que ter atenção ao tipo de estímulos que a criança recebe.

 

Por exemplo, pode até parecer que ela está pouco atenta aos programas de televisão pouco adequados à sua idade, com imagens, sons e linguagem complexos e violentos. Mas o facto é que, de forma mais ou menos consciente, regista tudo o que vê e ouve e pode vir a processar essas experiências da pior forma.

 

O mesmo se passa com outras fontes de informação, como livros, jogos de computador (mesmo que sejam usados apenas pelos irmãos mais velhos) ou até conversas de adultos.

 

 

Vai-te embora papão

 

E por falar em adultos, já parou para pensar na forma como a criança entende a figura do “papão” ou do “homem do saco”? Frases como “come tudo senão ele vem buscar-te!” podem até levá-la a acabar o prato da sopa, mas também tornam essas ameaças absolutamente reais.

 

Para uma criança amedrontada com esta atitude, se o pai e a mãe conhecem o papão suficientemente bem para saberem onde ele anda e o que pode vir a fazer, então é porque ele é real.

 

Se esta convicção estiver mesmo implantada, de nada vale o mesmo pai e a mesma mãe afirmarem a pés junto que o papão não existe, logo que a noite cai e estiver na hora de ir para a cama. Especialmente se, no dia seguinte, o monstro regressar para fazer mal aos meninos que não acabam a refeição…

 

 

Gesto que ajudam

 

Quando o medo aparece, por vezes, basta deixar uma luz de presença acesa no quarto. Ou esquadrinhar todos os armários gavetas e cantos e garantir que não há monstros nenhuns e que tudo o que está no interior são roupas, sapatos e brinquedos. Ou nomear um boneco de peluche como companhia noturna destinada a afugentar inimigos. Ou pegar na mão até o sono chegar.

 

Tudo isto diz à criança que nunca estará sozinha e é útil até a imaginação à solta dar lugar a uma razão cada vez mais forte. Ou seja, até a criança ultrapassar a fase dos medos.

 

 

Maria Cristina Rodrigues

artigo do parceiro: Maria Cristina Rodrigues

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