As doenças que atingem o coração do bebé explicadas por um médico

Esclarecemos algumas dúvidas sobre doenças que atingem o sistema cardiovascular do bebé com o médico António Macedo, cardiologista pediátrico no Hospital Lusíadas Lisboa e autor do blogue "Meu pequenino coração".

Quais são as doenças mais graves a atingir o coração do bebé?

São as cardiopatias, embora a sua presença seja de cerca de 8 por mil recém-nascidos vivos. As cardiopatias - um problema na estrutura do coração - na criança são raras, mas importantes, porque são a causa de morte mais frequente no recém-nascido. No entanto, o tratamento medico ou cirúrgico evoluiu muito nos últimos anos, para todas as situações, por isso, identificar e tratar uma criança com doença cardíaca torna-se muito gratificante, pois restitui-lhe a liberdade física que eventualmente perdeu, assim como contribui para a diminuição da ansiedade familiar.

Hoje em dia, nos países civilizados, as cardiopatias diagnosticam-se cada vez mais cedo, muitas vezes antes de a criança nascer. Podemos, dum modo simples dividir as cardiopatias em idade pediátrica, em dois grandes grupos: cardiopatias congénitas e adquiridas. Se considerarmos as duas causas principais das cardiopatias na criança os genes e o ambiente, diremos que os genes dominam nas primeiras e o ambiente nas segundas. Mas há sempre uma mistura das duas causas.

Essas patologias são fáceis de identificar? 

Os cuidados perinatais em Portugal são atualmente dos mais avançados e a taxa de mortalidade neonatal e infantil são das mais baixas no mundo. A acuidade diagnóstica das cardiopatias nas maternidades é por isso muito boa, ainda que por vezes, raramente, haja falhas, pois a manifestação clínica não surge imediatamente nos primeiros dias. Isto deve-se a que a circulação no útero é diferente da circulação da criança fora da mãe, havendo uma fase de transição entre as duas circunstâncias. As cardiopatias mais graves têm uma manifestação mais precoce e as mais benignas manifestação mais tardia.

O diagnóstico e tratamento das cardiopatias congénitas é das áreas da medicina que mais evoluiu. Mesmo as cardiopatias mais complexas são passíveis de tratamento cirúrgico e médico

O que são as cardiopatias congénitas? São limitadoras da vida do bebé? 

A cardiopatia congénita é uma malformação no coração que ocorreu no primeiro ou segundo trimestre da gravidez. Esta anomalia causa mal funcionamento do coração, que se vai agravando se não for tratada. As causas das cardiopatias não estão ainda totalmente esclarecidas, mas existem causas ligados aos genes e causas ligadas ao meio ambiente, sejam agressões infecciosas, medicamentosas ou outras relacionadas com a mãe.

O diagnóstico e tratamento das cardiopatias congénitas é das áreas da medicina que mais evoluiu nas últimas décadas. Mesmo as cardiopatias mais complexas são passíveis de tratamento cirúrgico e médico, capazes de oferecer à criança e pais uma qualidade de vida normal no que respeita a atividades cognitivas ou quase normal no que respeita a desportos de competição ou profissionais. Há cardiopatias simples que se podem resolver por si e outras que, ainda que simples, podem tornar-se prejudiciais. Mas existem tratamentos curativos, muitos deles não cirúrgicos. As cardiopatias mais graves podem ser tratadas numa única intervenção, ou então por faseamento, em cirurgias paliativas, até que seja feita uma cirurgia definitiva. O transplante cardíaco é a última solução e é raro.

E o que pode dar origem a cardiopatias adquiridas?

As cardiopatias adquiridas geralmente são de causa infeciosa ou imunológica, como a doença de Kawasaki, a miocardite, o derrame pericárdico. Há cardiopatias que tendo uma causa dominantemente genética, só se manifestam mais tarde, na adolescência, como a miocardiopatia hipertrófica, o prolapso da válvula mitral, etc. Há doenças sindromáticas que tipicamente se associam a cardiopatias específicas, como a dilatação da aorta na sindrome de Marfan, a estenose pulmonar na síndrome de Noonan, as comunicações intracardíacas na síndrome de Down, as doenças do miocárdio nas doenças neuro-musculares ou mitocondriais, entre outras.

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