Nós e a nossa culpa

Com o nascimento do bebé, nasce com a mãe, automaticamente, um sentimento de culpa inerente a tudo o que faz e o que não se faz.

Culpa essa que se aplica ao filho, à casa e ao marido. Culpa essa que é infundada, sem motivos racionais, e que inexplicavelmente não se estende à consciência do pai. É algo só da mãe, com justificações e assunções que só a mãe entende, e que certamente a irá acompanhar até ao fim dos seus dias.

Se a mãe trabalha, sente-se culpada por trabalhar e não estar com o filho. Sente que  o bebé só a vê a sair de casa, sempre a porta a bater e a progenitora a desaparecer. Sente a culpa de deixar o bebé a chorar a chamar por si, sente cada choro e cada lágrima. Pode até arranjar estratégias para ser tudo mais fácil, sair só quando ele dorme profundamente, sair descalça pela porta fora, falar em sussurro  e desligar o telemóvel. Mas a culpa está lá na mesma, menos visível, mas enterrada no subconsciente da mãe.

A mãe trabalha para dar o melhor ao seu filho, sabe disso, e agarra-se a isso com unhas e dentes sempre que a culpa vem ao de cima. “Sou má mãe.”

Se a mãe está o dia todo com o bebé, a brincar com ele, a protegê-lo dos perigos da casa, a dar de comer na hora certa, a embalar horas a fio para dormir como um anjo, a arrumar o desarrumado, a mimar quando faz beicinho, a dar a mão quando cai, a ensinar a pegar na colher sozinho, a dar a aventura do primeiro passinho, a limpar a lágrima do desconsolo, a decifrar vontades e a  delirar com a primeira habilidade, sente a culpa de haver momentos  em que quer estar sozinha. Sente a culpa a aparecer e a instalar-se por querer estar uns minutos sozinha e em silêncio, ou porque já não tem forças para brincar mais um pouco, porque um banho sem interrupções era muito agradável, ou uma sestinha faria tão bem! “Estou cansada, mas sou má mãe.”

O marido chega e a casa está desarrumada; almofadas no chão, migalhas por toda a parte e o jantar atrasado, o bebé a chorar, o frigorífico meio vazio, e nada de fruta fresca, uma montanha de roupa por ajeitar, e o correio ainda por abrir. Um "vendaval" de poucos meses passou lá por casa e, mesmo antes de o pai chegar, acalmou; mais ninguém viu, mais ninguém assistiu, e mais ninguém compreende. Este "vendaval" inibe a mãe de se ir abastecer de verduras frescas e fruta cheirosa, não deixa que a roupa seja arrumada, que o jantar seja caseiro ou o chão aspirado, e desaparece mal alguém toca à porta. “A minha casa está em pantanas, sou má dona de casa.”

O marido quer ir jantar fora, quer que vista uma roupa nova e mais arranjada, quer que ponha uma cor nos lábios e nos olhos, um aroma fresco de perfume, que vá talvez até ao cabeleireiro. Quer ouvir música de adultos e conversa de homens de barba rija, quer um jantar gourmet e umas velas acesas, o relógio parado no tempo e o telemóvel desfalecido.  “Estou cansada, sou má mulher e má companheira.”

Marta Andrade Maia

My baby blue blog

artigo do parceiro: Marta Andrade Maia

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