Vanda Miranda em entrevista

A locutora de rádio fala do êxito e explica por que vive dias de alegria (fotos)

Todas as manhãs, mais de um milhão de pessoas para para ouvir o programa «Manhãs da Rádio Comercial». Vanda Miranda, a voz feminina da equipa que nos faz feliz, sabe tão bem porquê. O facto de ser a única mulher entre homens, como Pedro Ribeiro, Nuno Markl, Vasco Palmeirim e Ricardo Araújo Pereira, não preocupa a radialista, uma das mais famosas do país. «Sempre me senti à vontade no meio masculino», assume a animadora de 42 anos.

Da Vanda Miranda praticamente só conhecemos uma voz doce que, com mais quatro rapazes, nos faz feliz pela manhã. Fale-nos de si…

A minha família diz que eu sou mais divertida na rádio, mas aquilo que sou em estúdio não é uma personagem. Sou mesmo eu, com defeitos e virtudes. Na vida pessoal e profissional, tem sempre pensar positivo, ver o copo meio cheio. Viver é um privilégio, não há como não aproveitar e darmos o nosso melhor.

Sabemos que tem um vício saudável, que é o de ouvir Pearl Jam. Tem outros?

Tenho o vício de teimar rir mesmo quando a vida não está para aí virada. Até quando não estou bem, gosto de oferecer um sorriso aos outros. Vou ser muito Oprah [Winfrey] no que vou dizer, mas é mesmo isto. «You get what you give», [«Obténs o que dás», em tradução livre]. Mais tarde ou mais cedo, quando damos acabamos por receber.

As Manhãs da Comercial começam às sete horas. É um ritmo exigente. O despertador toca às 5h30, por isso deito o meu filho de quatro anos e vou para a cama às dez da noite, no máximo. É um horário muito exigente. A nível emocional, temos de estar bem mesmo que não estejamos. Não se trata de fingir, mas as pessoas esperam uma companhia animada de manhã. E, curiosamente, isso tem um lado terapêutico também para nós. Se não estamos bem, saber que temos de animar os outros
leva-nos a esquecer, em parte, o nosso problema.

O que a ajuda a contrariar o desgaste natural deste horário?

Ultimamente tenho procurado formas de equilibrar o organismo. Voltei a recorrer à acupuntura para gerir o stresse. Também fiz cursos de mindfullness, muito baseado na tradição budista da meditação.


O que aprendeu com esses cursos?

Que é bom parar nem que seja um minuto, que é importante vivermos o momento, não ficarmos reféns das preocupações sobre o passado e o futuro, não nos aborrecermos com algumas coisas, não julgarmos os outros.

A Vanda enquanto mãe não abdica de quê?

De passear, de viajar, de ir a museus com os meus filhos, de levá-los a ver o mundo. Fui mãe, pela primeira vez, com quase 23 anos. A minha filha [19 anos] tem sido uma companheira de vida tão boa. E tem imenso jeito para cozinhar! Eu comecei tarde, aos 30, mas também gosto muito. Tenho os livros e vejo todos os programas de Jamie Oliver, de Nigella Lawson.... Cozinhar acaba por ser um momento de ligação entre nós.

Tem cuidados com a alimentação?

Tenho a vantagem de gostar de pratos saudáveis (peixe grelhado, saladas e legumes) e fui desafiada pela minha filha para aderirmos ao movimento Meatless Monday. À segunda-feira não comemos carne. O meu crime diário são os doces, não resisto [risos].

Quem trabalha em rádio não sofre tanta pressão em relação à imagem como quem faz televisão. Ainda assim, é algo a que está atenta?

Gosto de cuidar de mim até porque muito do que fazemos pelo nosso corpo faz-nos muito bem à alma. Tenho cuidados básicos, como usar um creme de dia, um creme de noite e retirar sempre a maquilhagem ao fim do dia. Hoje também já percebo melhor as mulheres que têm a imagem muito exposta. Estão em permanente confronto com os seus pequenos defeitos, com o envelhecimento. Às vezes, dou por mim a pensar «Ai Vanda, tens de tratar desta pele» [risos].

Como se consegue dividir palco com quatro homens, sem perder protagonismo?

Sempre me senti à vontade no meio masculino. A minha mãe dizia-me que eu era muito maria-rapaz porque os meus melhores amigos eram quase todos rapazes. Tenho um irmão e, há 25 anos, quando comecei, a rádio era um meio dominado por homens. Gosto de me maquilhar e adoro andar de saltos altos, mas também tenho muita abertura para o humor deles.

Chegam a dizer-me «Tu és pior do que nós». A verdade é que não tenho a preocupação de me destacar. O segredo é sermos nós próprias. Não é por ser a mulher do grupo que tenho de queimar soutiens ou ser a defensora do romantismo. Faço-o, sim, se for por convicção.

No programa há dois ingredientes muito saudáveis, música e humor. Há outro que explique o vosso sucesso?

A nossa naturalidade. Fazemos o programa como se estivéssemos à mesa do pequeno-almoço, sem vozes formais. A diferença é que a conversa entre nós é ouvida por milhares de pessoas que sentem que fazem parte dela. Somos pessoas normais e falamos das coisas triviais da nossa vida, que são também o dia a dia de quem nos ouve. Penso que é essa nossa normalidade que faz com que as pessoas gostem nos nos ouvir, elas identificam-se.

São amigos?

Sim, há amizade. Damo-nos todos bem. Uns têm uma relação mais próxima do que outros, o que é normal. Saímos, encontramo-nos ao fim de semana, se nos apetecer. Gostamos mesmo uns dos outros e preocupamo-nos uns com os outros. Somos capazes de trocar mensagens porque o filho de um está doente ou porque outro tem um problema. É um programa muito emocional. Há riso, lágrimas, gratidão por parte de quem vos ouve.

Como é fazer tanta gente feliz?

É bom e, ao mesmo tempo, um bocadinho assustador. É uma responsabilidade e, às vezes, até difícil. Há pessoas que partilham os seus problemas, há muitos pedidos de ajuda e infelizmente não podemos dar resposta a tudo. Nessas alturas, percebes que o teu trabalho não é só passar música ou dizer maluquices. É, de facto, um trabalho que nos liga às pessoas com amizade. Aqui a imagem não distrai, falamos ao ouvido das pessoas.

Refletem sobre este lado do vosso trabalho?

Temos percebido que temos um papel que não é só o do entretenimento. Mas, acima de tudo, temos noção de que um dia há-de acabar. Sabemos que hoje somos nós e daqui a uns anos serão outros e que temos de saber viver bem com isso, dar o nosso melhor, fazer o nosso trabalho o melhor que sabemos até que nos queiram cá. As conversas em estúdio parecem espontâneas.

Há um alinhamento, um processo criativo anterior?

A seguir ao programa, fazemos uma reunião para o dia seguinte. Cada um sugere uma notícia, um tema, uma história… Preparamo-nos mas, na maior parte das vezes, fugimos ao guião, não estamos a ler, improvisamos muito e gostamos de trabalhar assim porque as pessoas também não têm um guião para conversar na sua vida.

O regresso do Ricardo Araújo Pereira veio mudar alguma coisa?

Não. Na primeira temporada, no primeiro dia, percebemos que ia funcionar, que ninguém ia ter de fazer cedências, intervir mais ou menos. Fluiu tão bem, sem esforço, que acho que foi também isso que fez com que o Ricardo voltasse. Somos fãs dele, todos o admiramos muito. É ótimo trabalhar com pessoas assim, que nos fazem crescer.

Imagina o seu futuro?

Nunca fiz planos a nível profissional, foi acontecendo, mas sei que gostava de fazer rádio até ser velhinha.

Texto: Nazaré Tocha com Carlos Ramos (fotografia)

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