Paula Lobo Antunes em entrevista

O percurso, a personalidade e o estilo de vida da atriz que queria ser médica (fotos)

Nascida nos Estados Unidos da América, mudou-se para Portugal aos cinco anos. Aos 18, rumou à Escócia para se formar em biologia médica mas, quando tudo fazia prever uma carreira promissora no universo da medicina, a paixão pela representação levou-a a estudar teatro em Londres.

Assumidamente tímida e perfeccionista, Paula Lobo Antunes é, hoje, uma mulher em paz com as suas opções. Incluindo a de dormir pouco, hábito que reconhece como o seu maior erro de saúde. «Um dia vou dormir... Até lá, é uma perda de tempo», considera a atriz de telenovelas como «Deixa-me amar» e «Mar de paixão».

É filha de um neurocirurgião e de uma médica anestesista. Em criança, falava-se muito sobre saúde em sua casa?

Não tanto de saúde como de medicina. Por exemplo, os meus pais, quando chegavam a casa, partilhavam situações que se tinham passado e assisti a várias operações. Para mim era normal, estava habituada e achava o máximo, até porque pensava que queria ser médica.

Acabou por se formar em biologia médica...

Sim, fazer um curso superior era o normal na minha família, fazer teatro era impensável. Quando acabei o 12º ano, os meus pais disseram «não, isso não é próprio». Para lhes agradar, mas também por ser algo de que gostava, acabei por fazer o curso. Foi uma oportunidade ótima, tinha 18 anos e fui para a Escócia, mas comecei a perceber que não me sentia realizada.

Porque quis ser atriz?

Sempre foi uma vontade oculta pela timidez, por vergonha... Eu era muito reservada mas, por volta dos 22 anos, houve uma viragem. Foi quando me senti mais eu própria, quando consegui libertar-me e pensar «é mesmo isto que quero fazer».

Arrepende-se de não ter optado logo pela representação?

Não, acho que entrei na profissão com a idade certa. Fiz a primeira novela da TVI com 29 ou 30 anos, o que para algumas pessoas pode ser tarde, mas foi tudo a tempo, de acordo com a minha maturidade. Seria incapaz de mergulhar nesta profissão tão efémera sem formação, tenho muito cuidado na abordagem de cada papel.

É perfecionista?

Sou. Muito. Gosto de sentir que estou a fazer uma coisa bem feita, de me sentir tranquila, preparada e confiante. Obviamente que, em cada papel, há inseguranças que vão sendo ultrapassadas, mas sou muito nerd.

Faço a dramaturgia de cada cena, procuro as intenções e o que está em risco para a personagem. Decoro o texto todo e, consequentemente, muitas vezes o dos outros. Gosto de chegar ao décor e saber exatamente o que se pretende de mim.

"Tinha um professor que dizia que os bons atores eram burros. Discordo!"

Paula Lobo Antunes

Que mais-valias retirou da formação em biologia médica?

Disciplina, rigor, que é muito importante para um ator, métodos de decorar, de raciocinar... Houve uma altura do curso de teatro em que me diziam que era muito cerebral e pouco emocional. Tinha um professor que dizia que os bons atores eram burros.

Discordo. Acho que é essencial um acesso emocional muito à flor da pele, mas tem de haver uma ligação dos dois. O curso desenvolveu mais o meu lado cerebral, mas depois rapidamente consegui desenvolver o emocional.

Foi esse o maior desafio?

Sim, sem dúvida. No início, os professores diziam que tinha um véu, que não me deixava transparecer. Ao representar tem de se mostrar o que está por baixo e isso é o mais complicado porque nos expomos mais do que se estivéssemos completamente nus.

Voltando ao contexto familiar... Que papel teve na forma como cuida da saúde?

Sempre fui muito curiosa e procurei estar atenta ao que era ou não saudável. Acho que não tem a ver com o facto de ser filha de médicos mas, se calhar, tornou-me mais consciente. Lembro-me que, no verão, o meu pai afixava no frigorífico uma fotografia de mergulhos na praia ou em piscinas, para lembrar o risco de acidentes e de se ficar paraplégico.

Também sempre pratiquei desporto, íamos para Monsanto fazer o circuito em família... Como tenho a pele muito branca e com sardas, a minha mãe corria atrás de mim na praia para me por protetor solar. Andava sempre com uma faixa branca na cara. Este sinal [aponta para o rosto, junto à maçã esquerda] apareceu depois de um escaldão. Preocupo-me muito com a pele.

Ainda gosta de praia?

Adoro, mas não apanho sol na cara, uso ecrã total, óculos escuros, chapéu e vou a partir das 15 horas ou, se for antes, fico debaixo do chapéu de sol. É como usar cinto de segurança... Há 30 anos não se falava tanto destas coisas, aplicar creme era para meninos. Mas, com a passagem dos anos, algumas doenças começam a aparecer.

A minha mãe teve cancro da mama, fez o mesmo teste genético que a Angelina Jolie e, felizmente, o resultado foi negativo [o cancro não estava associado a um gene defeituoso que pode ser transmitido de pais para filhos] pois, se fosse positivo, eu faria o mesmo [uma mastectomia preventiva]. É uma estratégia de prevenção básica.

"A minha mãe teve cancro da mama"

Paula Lobo Antunes

Que desportos pratica?

Na infância, houve uma fase em que queria ser ginasta, outra em que fazia muita natação e, por volta dos 13 anos, comecei a praticar bodyboard. Hoje em dia, descobri o zumba, é fenomenal. O melhor é o sorriso, toda a gente se ri enquanto dança, é muito divertido e permite gastar muitas calorias.

Vou ao ginásio pelo menos três vezes por semana e faço também body balance, que combina pilates e yoga, RPM [modalidade de fitness em bicicleta] e surf. Gosto de variar, sou muito ativa, não por obrigação, mas por gosto.

Ser atriz fá-la preocupar-se mais com o corpo?

Há cuidados indispensáveis mas não levo nada ao extremo. Uma pessoa sente-se bem e percebe que é o caminho certo. Por exemplo, se não beber água, não me sinto tão bem. No curso de teatro, o mais importante era estar preparada fisicamente para poder usar o corpo para qualquer papel. Não era ser linda de morrer, magrinha e vestir um 34. O essencial é sentir-me bem por dentro.

Tem cuidados específicos com a voz?

Além de beber muita água e de praticar exercício, não exagero no consumo de álcool e não fumo.

Evita algum alimento?

Deixei de comer carne há 18 anos, fui perdendo a vontade porque tinha aulas de anatomia e passava horas a observar cadáveres. Como soja e, de vez em quando, peixe. Como muitos vegetais verdes e, durante a gravidez, voltei a comer ovos. Não sou fã de doces, a minha mãe nunca os fez, e não adiciono açúcar ao café.

Reforçou alguns cuidados desde que foi mãe, em outubro de 2012?

Como estou a amamentar não posso fazer dieta nem tratamentos anticelulíticos e refirmantes, mas gostava. Como mais agora do que durante a gravidez e tenho mais cuidado com as opções que faço. Reduzi o café (antes de engravidar bebia seis por dia e agora bebo dois) e também tenho imenso cuidado a preparar a comida da minha filha. Compro vegetais biológicos e fruta fresca e cozinho a vapor... Adoro fazer isso para ela...

É embaixadora da fundação Make a Wish, que concretiza desejos de crianças doentes. Perseguir os sonhos é essencial para se ser feliz?

Depende, se forem inatingíveis podem fazer sofrer... Acho que é importante sonhar, acordado e a dormir. E quanto mais sonhos se vão concretizando, mais se vai acreditando que é possível ter mais e maiores. Se calhar sou um bocadinho realista demais, mas gosto de ter metas e de as ir alcançando.

Quais são as suas próximas metas?

A principal agora é ser uma boa mãe e criar uma pessoa feliz e realizada, com força e alegria. É uma responsabilidade, estou a educar alguém que vai contribuir para a sociedade. Como atriz, tenho feito curtas-metragens e workshops para me atualizar e estar a cem por cento quando vier um papel de valor, seja na televisão, cinema ou teatro.

Os rituais de Paula Lobo Antunes

Descubra o lado mais místico da atriz:

- Superstições

«Foram instituídas pela minha avó materna. Três pessoas não podem beber de um copo, 13 não se sentam à mesa, ao ver um gato preto cospe-se dez vezes. Faço isso, às vezes meio às escondidas. Não passo debaixo de escadas, mesmo em centros comerciais, e abrir chapéus de chuva dentro de casa ou partir espelhos. Jamais», assegura.

- Antes de representar

«Entro sempre com o pé direito, digo um mantra e faço sempre uma saudação ao sol, é também uma questão de energia, sinto-me mais completa. Perguntam-me se não o fizer o que é que acontece e eu não sei, mas prefiro não saber», desabafa a atriz.

Texto: Rita Miguel com Carlos Ramos (fotos)

artigo do parceiro:

Comentários