Fátima Lopes em entrevista

A apresentadora de televisão fala de si como escritora, como mulher e como mãe (fotos)

«Ser feliz dá muito trabalho», reconhece Fátima Lopes, apresentadora de televisão que se estreou no pequeno ecrã em 1994, 10 anos antes de ter sido distinguida pela Casa da Imprensa como Melhor Apresentadora de Entretenimento, em 2004. Disciplina, método e bom-senso explicam a mestria com que articula os papéis de mulher, mãe, apresentadora e autora. Uma conversa a propósito do seu quinto livro, «Mães e filhas com história», lançado pela editora A Esfera dos Livros.

Chega às 11h40 ao local combinado, retira de um trolley documentos de trabalho e pede desculpa pelo excecional atraso de dez minutos. Naquela manhã chuvosa tinha, como sempre, acordado às sete horas e preparado a marmita dos filhos, que levou à escola. A aliança entre rigor e afeto fá-la rever-se, como mãe, em D. Filipa de Lencastre, uma das figuras do livro que publicou no segundo semestre de 2013. Essa junção entre o racional e o emotivo marca a sua personalidade.

Apresenta um programa de televisão diariamente, tem dois filhos, cuida da sua forma física. Como encontra tempo para escrever?

Um escritor normalmente escreve com prazos muito apertados, eu posso ir escrevendo, sem pressa. Fui-me especializando em gestão de tempo e consigo ir fazendo as coisas porque me organizo muito.

No caso deste livro, onde e quando escrevia?

Por norma, à noite, depois de os meus filhos se deitarem, mas se havia um fim de semana em que a Beatriz [filha mais velha] estava com uma amiga e o Filipe [o mais novo] ficava com os avós, tinha esse tempo... Na fase final, tentava juntar o que tinha para fazer em duas manhãs e ficava com as outras para escrever.

Fiquei sem tempo para fazer desporto, deixava os meus filhos na escola e agarrava-me ao computador até à hora de ir trabalhar. Mas a informação foi sendo pesquisada por uma investigadora e pude pensar e sentir cada mãe e filha antes de escrever. Tinha de estar disponível para chegar à personalidade de cada uma, para as fazer viver na minha cabeça.

Como selecionou as mulheres retratadas?

Procurei escolher duplas o mais diferentes possível umas das outras e que cada uma passasse certos valores sobre a maternidade. Daí termos desde mães que são uma doçura a mães que nunca deviam ter sido mães. Por outro lado, há duplas históricas sobre as quais não havia dados sufi cientes para um trabalho com base verídica.


Por que diz que escrever este livro a tornou uma mãe mais consciente?

Dar um ralhete, fazer perceber que se passou das marcas, eventualmente castigar, mas estar à vontade para voltar a dar colo de peito aberto é algo com que fiquei mais apaziguada. Às vezes, receava estragar a educação com excesso de colo, mas depois destas histórias, em que algumas mães deram 20 ou 30 por cento e foram profundamente amadas, e as filhas só queriam que lhes dissessem que as amavam, penso «Meu Deus, tenho dado sempre cem por cento, por que é que continuo a achar que tenho de inventar o 105»?

Frequenta seminários de psicologia positiva. Como surgiu esse interesse?

Foi há muitos anos, ao fazer formações na área do desenvolvimento pessoal com Christiane Águas. Comecei a perceber que, se adquirisse ferramentas psicológicas e emocionais, conseguia mais facilmente ser a arquiteta da minha vida. Deixar que o mar levasse o barco não me deixava confortável, queria comandá-lo e, para isso, tinha de perceber alguns sinais, a minha participação em episódios menos felizes...

Que princípios da psicologia positiva aplica no dia a dia?

A programação neurolinguística deu-me uma bagagem fundamental quanto à forma de pensar e falar. Por outro lado, faço meditação e visualização e, como falo com todos os convidados antes do programa, percebo o tipo de pessoa, a sua energia, e isso dá-me uma informação preciosa, que não partilho mas me permite definir por onde ir. Quando trabalhamos a intuição e nos habituamos a ouvi-la é imediato.

Isso pode soar a algo esotérico e abstrato...

Não, é muito concreto. A nossa cabeça e emoções são complexas, mas em algumas coisas somos muito básicos e perceber o princípio facilita a troca de uma disquete antiga por uma mais fresca. Não digo nova porque o que se aprende demora a mudar. Há milhares de exemplos de pessoas que, às vezes após um acontecimento traumático, perceberam que tinham de mudar. Ao ler um livro de psicologia positiva percebe-se as ferramentas e, depois, é praticar.

Não usa palavras negativas, como o termo difícil. Não é uma forma de tapar o sol com a peneira? 

As emoções respondem à energia das palavras. Se me perguntar «Acha que esse desafi o vai ser difícil?» e eu responder «Vai ser dificílimo, ainda não me comecei a preparar, mas já estive a ver e é uma montanha» o meu cérebro está a registar cada uma destas palavras. Quando começar a trabalhar, ele vai lembrar-me de que é quase intransponível.

A minha disponibilidade interior diminui, demoro 20 minutos a compreender o que seria compreensível em dois, tudo se complica. Enquanto que se eu responder «É um desafio que vai exigir bastante de mim, terei de me empenhar, organizar a informação, mas é uma questão de método. Vai-se fazer, com certeza», o meu cérebro recebe a informação de que apenas exige investimento, o stresse reduz e a minha produtividade é francamente superior.

Não há momentos em que é preciso dizer palavras negativas?

Há momentos em que sabe bem dizer um chorrilho de palavrões, para libertar tudo que está cá dentro, ou dar dois murros na parede, ou ir para a rua e gritar, ou esfrangalhar uma almofada. Não estou a dizer que o ser humano não pode abrir a válvula, pelo contrário. Quando me irrito, preciso de por algo que me deixou fora do sério cá para fora. Quem não se sente não é filho de boa gente.

O capítulo seguinte é parar e pensar «Mas o que se passa? Por que é que vivi isto?». Fazer o «a seguir» é essencial, senão dizemos «Ninguém me compreende», ficamos com pena de nós próprios e é, vou dizer propositadamente, uma desgraça. Pormo-nos no papel de vítimas atrai, necessariamente, carrascos.

Apresenta um programa muito emotivo. Fala sobre ele em casa?

Tento deixar no trabalho o que oiço porque não posso perder a capacidade de sorrir e conduzir a minha vida. Dois meses depois de estar a fazer o «Fátima Lopes» [antigo talkshow na SIC] não dormia e percebi que separar as águas era uma questão de sobrevivência. Foi uma opção consciente e racional e, salvo raras exceções, consigo fazê-lo.

Mas ainda no outro dia, ao preparar um programa sobre pais que perderam os filhos, o que estava a ler era tão duro que tive de partilhar com o meu marido. Também partilho histórias que podem representar um ensinamento para a Beatriz, até para ela perceber que, em muitas situações, teve a vida facilitada.

O seu marido é enfermeiro. Falam sobre saúde?

Sim, é a primeira pessoa a quem coloco dúvidas. Às vezes há algo com os fi lhos que penso que é o fim do mundo e ele diz-me «Olha que é banalíssimo, acontece a todas as crianças, pode ter origem nisto e nisto e a única coisa que se faz é isto e deixar passar». É uma ótima ajuda...

De que cuidados de saúde não prescinde?

Faço as análises recomendadas pelo médico de família e por outra profi ssional que me acompanha. Tomo suplementos de ómega-3, probióticos, o que for necessário. Depois, não consigo viver sem desporto. Treino três vezes por semana, no mínimo hora e meia, na FisioGaspar, onde as aulas são dadas por professores com ligação à fisiatria e fisioterapia, após uma avaliação física e emocional.

É regrada, mas diz-se impulsiva. Já se sentiu presa nas suas próprias regras?

Se me dissessem «Tens de ser muito certinha», sentiria como algo castrador, mas fui eu que me impus estas regras. No dia em que achar que estou a fi car desequilibrada, espero ter a abertura de espírito para mudar. Até agora sinto-me melhor assim porque sei que consigo cumprir o que quero fazer. Não gosto da angústia do não feito, do acumular. Mais vale fazer um bocadinho todos os dias.

É por isso que diz que ser feliz dá muito trabalho?

Ser feliz dá mesmo muito trabalho, é o que dá mais trabalho na vida. Primeiro o ser humano é complexo. Depois, às vezes, o que queremos hoje não é exatamente o mesmo amanhã. Por outro lado, não há uma felicidade plena, e ainda bem, senão não saboreávamos nada. Por isso é que Deus fez a noite e o dia, o preto e o branco.

Construir a felicidade é um trabalho diário, é muito mais fácil dizer «Não vou encontrar ninguém» após duas relações falhadas ou «Não vale a pena sonhar» após dois empregos onde não se foi feliz. Os tropeções fazem parte, mas não podemos desistir...

É curioso, diz «Deus criou»...

Eu acredito, sou católica, mas uma coisa joga com a outra. Foi Deus que nos deu a possibilidade de escolher. Se pedimos uma coisa maravilhosa e fazemos tudo ao contrário para a concretizar, lamentamos o quê? Se calhar temos de nos zangar é connosco. Em alguns momentos, além de me socorrer desta força que Deus distribuiu de forma igual por todos os seres humanos, preciso de falar com Ele. Basta-me estar em casa, sentada num sítio sem barulho, e lá nos entendemos.

Perguntas rápidas para respostas curtas:

O que faz para afastar o stresse?
Meditação

Qual é a sua comida saudável favorita?
Saladas

Que alimentos exclui da sua alimentação?
Tento evitar os doces, mas fico no tento. Gosto muito de prevaricar.

Um exercício para tonificar o corpo?
O TRX. É fantástico!

Qual foi o último livro que leu?
Li-o estas férias...«Quinta-feira no Parque»!

Qual é o local onde prefere passar as férias?
Adoro o Alentejo, o Minho, Trás-os-Montes... Portugal!

Tem alguma viagem planeada?
«Nenhuma [risos]. Gostava de ir a um país oriental, não conheço nenhum.

Quem foi a pessoa que mais a influenciou?
A minha mãe!

Qual é a sua citação favorita?
Tenho várias de que gosto muito... [tira do trolley o bloco de notas] Esta é de José Luís Peixoto, de uma crónica na Visão. «Desde cedo que temo a possibilidade de passar pelas horas mais felizes da minha vida sem as reconhecer».

Texto: Rita Miguel com Carlos Ramos (fotos)

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