Até onde vão os seus limites no sexo?

A partir de que altura é que as fantasias, os fetiches e os rituais sexuais ultrapassam a fronteira do que é suposto ser a normalidade? O psiquiatra Vítor Cotovio responde à pergunta.

Será que pode existir uma sexualidade sem limites? O que define uma sexualidade saudável? Também se costuma debater com este tipo de interrogações? Não é o único! A experiência clínica enquanto psiquiatra não deixa margem para dúvidas a Vítor Cotovio. «Tudo aquilo que faz sentido às pessoas envolvidas, que não é invasivo em relação ao outro, nem tem um caráter obsessivo que as domina na obtenção de prazer», diz.

«Pelo contrário, quando uma pessoa se torna refém de uma prática considerada bizarra, perde o controlo sobre a sua sexualidade e entra, assim, no domínio da parafilia, um desvio sexual identificado pela comunidade científica como perversão», explica ainda o psiquiatra.

Esta é a fronteira que demarca uma sexualidade feliz e equilibrada e que serve de pano de fundo ao desafio que lançámos ao psiquiatra, o de comentar quatro rituais sexuais e revelar-nos se e porque são (ou não) normais e saudáveis para a relação do casal:

- «Durante as relações sexuais com o meu marido imagino que estou com outros homens»

«O problema não é a fantasia em si porque toda a gente tem fantasias. É, sim, muitas vezes, até que ponto pode ser partilhada e aceite pelo outro, até que ponto pode envolver o companheiro. É necessário que a fantasia seja contextualizada na relação», adverte o psiquiatra.

«Isto é, perceber se esta surge como resposta a uma frustração (e, nesse caso, a partilha torna-se impensável) ou se a fantasia funciona como catalisador da qualidade da vida sexual, estando esta ao serviço da relação e não o contrário. Uma coisa é a representação de um papel que se idealiza, dentro do registo de surpresa. Outra, completamente diferente, é deixar que essa representação tome conta da relação», explica o especialista.

- «O meu parceiro gosta de me insultar durante as relações sexuais»

«Os instintos mais comuns no ser humano são os impulsos sexuais e agressivos que, muitas vezes, acabam por se intercetar. Nesse sentido, não é estranho que surja uma linguagem que não é usada no quotidiano mas que faz todo o sentido no contexto sexual», esclarece Vítor Cotovio.

«Importa, no entanto, esclarecer que isto pode ultrapassar os limites do entendido como normal quando a pessoa fica refém desse tipo de comportamento e não consegue ter prazer de outra forma. Mas se dentro do espetro normal da vida sexual, isso aparecer como complemento, é absolutamente natural, desde que, em nenhuma altura, haja uma violentação ou imposição em relação ao outro», acrescenta ainda.

- «Gosto de incluir brinquedos sexuais na intimidade mas o meu namorado tem ciúmes»

A prática tem vindo a ganhar adeptos e, nos últimos anos, têm surgido muitas novidades no mercado. «Os homens foram culturalmente programados para associar a sua masculinidade a um sentimento de posse, que se confunde com a ideia de machão que satisfaz todas as mulheres», refere Vítor Cotovio.

Estes estereótipos fazem com que eles se sintam postos em causa ao serem confrontados com a ideia de não estarem a cumprir as suas próprias expetativas e de não serem bons o suficiente para que a mulher não tenha necessidade de recorrer a outro tipo de estimulação. Apesar de não ser nada disto que está em causa, o homem pode senti-lo dessa forma», desmistifica o psiquiatra.

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