O que desliga o desejo?

A sexóloga Vânia Beliz responde à pergunta e ensina a voltar a ligá-lo

«Se existem realmente muitas diferenças entre nós e os homens, ora aqui está uma das maiores. As mulheres têm ciclo hormonal. Já não nos bastava a dificuldade em ter disponibilidade para o desejo e ainda estamos sujeitas, ao longo do mês, a sofrer uma série de alterações hormonais que nos deixam na Terra do Nunca», afirma Vânia Beliz.

Vânia Beliz, sexóloga, identifica e explica, no seu livro Ponto Quê, o peso de um dos principais fatores que interferem nos níveis de desejo sexual feminino. Saber como funciona o nosso organismo pode ajudar (e muito) a gerir emocionalmente uma situação que afeta a dinâmica do casal, mas há outros fatores. E outras tantas estratégias.

A influência das hormonas

O desejo sexual feminino é afetado por várias flutuações hormonais, diminuindo na segunda metade do ciclo menstrual. Ao contrário dos homens, explica Vânia Beliz, «que desde a puberdade produzem testosterona ininterruptamente (a hormona responsável pela libido masculina), nós só produzimos estrogénio (a hormona estimulante da libido feminina) durante metade do ciclo».

Tal sucede apenas durante os 14 dias seguintes ao primeiro dia da menstruação. Terminado este processo, inicia-se o período fértil e, com ele, a produção de progesterona, hormona que, entre outras coisas, está associada à diminuição da libido, flutuações de humor e irritabilidade. «É importante que o homem perceba a existência do processo hormonal e as suas consequências», considera Vânia Beliz.

Nos casos em que a irritação e ausência de desejo são muito acentuadas, a solução pode também passar «por uma conversa aberta com o seu ginecologista para uma mudança de método contracetivo ou a prescrição de um medicamento ou produto natural que ajude a estabilizar as flutuações hormonais», recomenda a sexóloga.

O problema da rotina

«A rotina pode matar o desejo», confirma Vânia Beliz. Cm o passar do tempo, a frequência sexual diminui e a culpa é «das alterações que ocorrem nos relacionamentos quando surgem novos objetivos e exigências», diz. Muitas mulheres sentem que os parceiros estão sobretudo preocupados em ter prazer e que «dedicam pouco tempo a novas experiências».

O tempo a dois ganha uma nova dinâmica, sobretudo com a chegada dos filhos, e a intimidade
perde-se no processo. É essencial perceber a importância do sexo, «não se resignar com o esmorecimento do desejo e lutar com todas as armas», recomenda mesmo a especialista em sexologia.

«Não finja que tem prazer ou que é feliz, estará sempre a enganar-se mais a si do que o seu parceiro. Tome a iniciativa, mostre-se disponível e diga-lhe que espera uma vida sexual mais estimulante», aconselha Vânia Beliz. E planeie mais momentos de qualidade a dois, sem computadores, telemóveis ou tablets. O diálogo é essencial para perceberem os desejos do outro.

Cuide da aparência, recomenda também a especialista. «É importante para a melhoria da autoestima, uma porta do desejo», refere. Reflita. Escreva tudo o que considera estar bem e mal na relação e o que pode fazer para melhorar a situação e trace novos objetivos.

«Em vez de atribuir culpas, faça Sugestões e lembre-se que nada se constrói sozinho», sublinha ainda Vânia Beliz. «Não ceda no sexo só para agradar. Fale com o seu parceiro sobre o que, naquele momento, lhe daria mais prazer», sugere também a especialista.

A interferência dos filhos

Com a chegada dos filhos a maioria dos casais queixa-se de falta de tempo e vontade para o sexo. «O desejo, após o parto, tem tendência a diminuir, fruto das alterações hormonais que ocorrem no corpo da mulher». A espontaneidade fica condicionada e o sexo passa a ser planeado e previsível. «A relação torna-se diferente e um filho não une o casal. se a relação não for já suficientemente sólida, um filho pode atrapalhá-la ou até pôr-lhe fim», alerta Vânia Beliz.

«Não se esqueça que antes de serem pais eram um casal, pelo que o espaço para o namoro tem de continuar a existir», sublinha a sexóloga. «Talvez não se sinta com a mesma disposição e deverá fazer ver isso ao seu companheiro, mas é importante continuar a estimular o desejo e procurar fazer o que também lhe dá prazer», refere ainda.

Aproveitem os momentos calmos do bebé para estarem a dois. «Aprenda, desde cedo, a confiar na família para deixar o seu filho e se dedicar à relação, sem culpas. Antes de ser mãe, você já existia», faz questão de recordar a sexóloga.

«Não dê o outro como garantido ou conquistado. Mesmo que se tenha transformado numa pessoa menos desejável para si, isso não significa que o seja para os outros», acrescenta ainda. No que se refere à intimidade, é fundamental manter o equilíbrio. «Os anos trazem um grau de intimidade que pode conduzir ao desleixo, potencialmente letal para a relação», adverte.

Quando a dor é um fator de desmotivação

Controlar a dor é um passo importante para chegar a prazer. A sexóloga Vânia Beliz identifica as causas e aponta possíveis soluções:

- Dor durante a penetração

Na maior parte das vezes, tem a ver com uma deficiente preparacao para o ato sexual e com a pressa em chegar a fase da penetracao. Experimente um lubrificante especifico (nunca vaselina ou creme hidratante) e, se o desconforto se mantiver, consulte o seu medico.

- Dor crónica

Compromete o desejo e o prazer. Se tem uma doenca que provoca dor cronica, levar o parceiro a sua consulta pode ser importante para que ele perceba o problema. Banhos quentes e massagens antes da relacao podem ajudar, assim como identificar as posicoes mais confortaveis (a lateral e uma hipotese).

Sexo antistresse

«Problemas financeiros ou profissionais favorecem o stresse que pode condicionar o desejo, sobretudo nas mulheres que têm maior dificuldade em desligar-se da ansiedade e viver o momento», conta Vânia Beliz. Curiosamente o sexo pode ser parte da solução: ajuda o organismo a produzir serotonina, contribuindo, assim, para o bom humor. Técnicas de relaxamento (yoga, meditação, massagens) ou caminhadas são, também, bons antídotos contra o stresse.

Independentemente do comportamento que possa vir a adotar, seja honesta sem magoar. Se, por exemplo, o aumento de peso do seu parceiro inibe o seu desejo, diga-lhe algo como «tenho saudades de tocar no teu corpo como era antes, era importante eu sentir que lhe dás importância», sugere a especialista.

Elimine também alguns fatores dissuasores, como é o caso da depilação por fazer. Passar o dia de pijama ou partilhar a casa de banho não abonam a favor do seu sex appeal nem do desejo do seu parceiro, mesmo que esse comportamento seja considerado normal pelos dois. Tenha isso permanentemente em conta.

Texto: Nelma Viana com Nazaré Tocha e Vânia Beliz (sexóloga)

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