As paranóias do ciúme

Quando os perseguidos se tornam perseguidores

Casado com Capitu, é durante o funeral do seu amigo Escobar, no qual a esposa lhe parece contemplar o cadáver de maneira apaixonada, que a ideia fixa de infidelidade conjugal se instala definitivamente na mente de Bentinho, a personagem principal do romance de Machado de Assis «Dom Casmurro», editado pela Editora Moderna.

Ensismemando-se de ciúmes, passa a ser conhecido pelo nome da personagem que dá título ao livro.

O enredo dessa obra de 1983 descreve o planeamento do assassinato da esposa e do filho, seguidos do seu suicídio. Tal não vem no entanto a suceder-se e a tragédia é evitada com a separação do casal. Mas porque razão tantas vezes estas ideias fixas delirantes de ciúme se revestem de importância médico-legal? Poderão as paixões excessivamente ciumentas ser consideradas ou comparadas a formas de loucura?

Na paixão e na doença mental, o indivíduo está, de certo modo, subjugado mas, na última, pode dizer-se que a subjugação é total. Está permanentemente hipervigilante, a ideia fixa invade o pensamento, prejudica a relação com o outro e a vida profissional. Todos os míseros detalhes da vida da pessoa se transformam em provas da infidelidade do outro. Um gesto mais carinhoso, uma cama que range, uma visita mais regular, uma mancha nos lençóis, um carro que pára diante de casa, tudo são provas do crime...

O delírio que se expande transforma estes perseguidos em perseguidores. Abandonam as suas actividades e obrigações, envolvem-se em perseguições e inquirições e o suposto traidor pode sofrer de violência verbal e maus tratos físicos. O que procuram os casmurros dos dias de hoje, doentes note-se, é a demonstração desta verdade. Poderão libertar-se mediante o suicídio, reagir violentamente fazendo outras vítimas ou, então, tal como a personagem de «Dom Casmurro», que se ajusta-se às ideias, entregarem-se a uma vida de dúvidas, tristeza, ressentimento e amargura.

Não é difícil perceber que personalidades originalmente desconfiadas, vendo maldade nas intenções e acções de outros, têm o terreno fértil para o desenvolvimento de paranóias persecutórias. A mesma compreensibilidade acompanha os desenvolvimentos em personalidades originalmente ciumentas e situações em que um ciúme mórbido faz parte de uma resposta emocional intensa a um desaire amoroso ou mesmo de uma melancolia.

Há ainda o ciúme do alcoólico em que uma relação explicativa se pode estabelecer entre o efeito tóxico do álcool e as ideias de infidelidade conjugal, por vezes, tão alucinantemente vividas. Por último, estes delírios passionais podem surgir como algo inteiramente novo que escapa a qualquer esforço compreensivo.

Pode o perseguido e perseguidor ser facilmente ajudado? A resposta é... não! Quando aquilo que se nos apresenta são somente queixas de deslealdade conjugal, só nos resta a suspeição. Como diz o escritor Miguel Bombarda em «O Delírio do Ciúme» (Ulmeiro), «a ideia delirante do doente corresponde a alguma coisa de possível». Para os delirantes de ciúme, porém, enfermos da lógica, do critério e da reflexão, já não há lugar para a suspeição, uma vez que a realidade está deformada pelas suas fantasias.

Texto: Joana Sá Ferreira (médica interna de Psiquiatria do Centro Hospitalar Universitário de Coimbra, médica do Grupo Saúde Dermokorpus e investigadora do Grupo de História e Sociologia da Ciência do Centro de Estudos Interdisciplinares do Século XX da Universidade de Coimbra – CEIS20)

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