Valentim de Barros, o bailarino a quem roubaram a vida

Viveu preso num hospital psiquiátrico entre 1949 e 1986. Todos o disseram louco mas a única “doença” que lhe apontaram foi ser homossexual.

Reportagem de Bruno Horta

O bailarino português Valentim de Barros morreu há precisamente 28 anos, a 3 de fevereiro de 1986. Tinha 69 anos e passou quase quatro décadas encarcerado no Hospital Miguel Bombarda, em Lisboa. Teve aulas de dança no Teatro Nacional D. Maria II, foi estrela cadente em palcos de Barcelona, Berlim e Estugarda, assistiu à ascensão dos nazis na Alemanha e chegou a ser preso pela polícia política em Portugal. Um dia, apagaram-no da sociedade. A vida diletante, o incerto fetiche pelo travestismo, a homossexualidade e os excessos da sua personalidade podem ter sido os motivos. Foi internado, operado ao cérebro, depois transferido para uma ala de segurança. Alimentou-se das memórias dos breves anos em que dançou e, mais tarde, a única afeição que conheceu foi a de médicos e enfermeiros. Chegou a ser entrevistado pelo “Diário de Lisboa” e pelo “Expresso”, mas vem a morrer doente e abandonado num quarto de hospital.

Maior que a vida, a história de Valentim é aqui reconstituída pela primeira vez na íntegra, com base em documentos inéditos. Acompanhe esta reportagem, diariamente, ao longo desta semana.

Os pais, os primeiros anos e a descoberta da sexualidade

MÃE

Lavra a I Guerra Mundial há dois quando Ana da Encarnação dá à luz o oitavo e último filho. É a 11 de novembro de 1916, tem ela 29 anos. O bebé recebe o nome do avô materno, Valentim, e marca a renovação da vida numa casa que a morte visitou três vezes.

Ana da Encarnação, de apelido Monteiro Figueiredo, perdeu três filhos. Joaquim não resistiu a ataques epilépticos. Amélia sucumbiu à febre tifóide, provavelmente durante o surto que atingiu Lisboa em outubro de 1916. António foi arrasado por uma bronquite capilar.

Agora nasce Valentim, saudável e encantador. Não está sozinho, há outros irmãos: Maria, António, Ester e José, nascidos por esta ordem. A família habita o número 96 da Rua da Boavista, em Lisboa. É a época em que os homens não saem à rua sem fato, gravata, chapéu e bigode; as mulheres, sem longos vestidos; uns e outros de cores fechadas. As tropas portuguesas estão prestes a entrar na I Guerra e a cidade assiste a fúnebres paradas militares na Baixa e na Avenida da República. Na Rua da Boavista, o pequeno Valentim eclipsa atenções.

“Era o rapaz mais bonito que tenho visto, fisicamente era um Adónis”, descreverá a mãe a um médico, anos mais tarde, quando o filho é internado no Hospital Miguel Bombarda. “Era uma verdadeira estampa. As raparigas beijavam-no por prazer. Havia famílias amigas que o levavam para casa às semanas inteiras só para terem o prazer de o admirar.” Ana da Encarnação tem um carinho extremoso pelo rapaz, amamenta-o, cuida-o, narcisa-o. À medida que cresce, o que ele faça será bem feito. Até ao dia em que é ela a entregá-lo a um hospital psiquiátrico, talvez vencida ou iludida. Mas isso será apenas em 1939.

“Para os arranjos da casa e trabalhos femininos, não há ninguém como ele”, contará Ana da Encarnação. “É capaz de fazer os desenhos para o mobiliário e decoração de qualquer casa. Sabe fazer rendas, toalhas de mesa, guardanapos, naperons, colchas de ‘filet’ e bordados.”

Cedo, também, descobre Valentim o prazer da dança. Organiza demonstrações em casa para os amigos da sua idade. Um bailarino de nome desconhecido, homem feito, será visita assídua de casa a pretexto de ensinar o miúdo a dançar, tem este 14 anos. Terá sido um erro.

É aquele bailarino quem lhe “mete o vício no corpo”, acredita a mãe. “Os dois fechavam-se numa sala durante horas e lá dentro faziam o que lhes apetecia”, lamentará, anos depois, e enquanto o faz reúne evidências do que sempre soube e não quis ver: “As minhas filhas não gostavam dele, ele às vezes roubava-lhes os namorados.”

De Ana da Encarnação nada mais se sabe, apenas que se separa do marido em data incerta.

artigo do parceiro: Bruno Horta

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