Mulheres sofrem mais com a morte do animal de estimação

Foram avaliados os comportamentos e as emoções dos donos durante o luto

Os donos dos animais de estimação tendem a não exteriorizar os sentimentos, quando os bichos morrem, embora as mulheres demonstrem sentir mais a perda, sendo o sofrimento tendencialmente maior com a morte de um cágado ou de tartaruga.

A conclusão consta do estudo "Perder o Snoopy: Processo de Luto após a Perda de um Animal", conduzido por quatro investigadores da Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias.

No estudo, que está a ser ultimado para efeitos de publicação na imprensa científica, foram avaliados os comportamentos e as emoções dos donos durante o luto.

O luto define-se por reações diversas a uma perda significativa, que, em relação aos animais, como nos humanos, vai alternando entre o choque, o choro, a tristeza, a negação, a raiva, a culpa e a aceitação.

A um questionário divulgado por correio eletrónico - em clínicas, hospitais veterinários e associações de defesa dos animais - e nas redes sociais, responderam 499 pessoas, entre os 13 e os 70 anos, que já tinham perdido pelo menos um animal de estimação.

A maioria dos inquiridos são mulheres (88,2%), que consideram o animal como um amigo (81,4%) ou um companheiro (79,8%). Os cães (65,3%) e os gatos (27,9%) são os bichos mais referenciados no estudo.

Quando confrontados com a perda do seu animal de estimação, a maior parte dos donos "não exterioriza, não demonstra os seus sentimentos de luto", revelou à agência Lusa Ana Sofia Silva, uma das investigadoras, formada em Psicologia.

Segundo Ana Sofia Silva, "esta atitude pode estar relacionada com a forma como algumas sociedades desprezam" o luto com animais, "obrigando as pessoas a omitirem os seus sentimentos e, consequentemente, impedindo qualquer apoio", nomeadamente psicológico, que possam necessitar.

Sentimento de perda, incredulidade e saudade foram algumas das sensações manifestadas pelos inquiridos, após a morte do seu bicho de estimação, sendo que, quanto maior for a intensidade do luto, maiores são as emoções negativas associadas, como ansiedade, depressão, raiva, nervosismo, tristeza, irritação, culpa, desgosto, medo e tristeza.

O estudo conclui que, entre homens e mulheres, são estas que sofrem mais com a perda do seu animal. "As mulheres possuem, provavelmente, uma forte vinculação com os animais de estimação, uma vez que estes podem representar um parente ou uma criança, o que estimula o seu instinto maternal", avançou a investigadora.

Tentando perceber se o luto de cães e gatos seria mais significativo do que de outros animais, designadamente aves e répteis, devido à sua maior convivência com os humanos, a equipa verificou que o sofrimento é tendencialmente mais intenso nos donos que perderam um cágado ou tartaruga, não obstante a amostra destes animais ser pouca expressiva (1%).

A justificação prende-se com "a longevidade destes animais, que vivem, em média, 70 anos e, por isso, os laços com os seus donos são muito fortes", realçou Ana Sofia Silva, defendendo, porém, um estudo abrangendo uma amostra maior de cágados e tartarugas, para ser confirmada essa tendência.

Os investigadores da Universidade Lusófona verificaram ainda que, quanto mais velho é o dono, ou este espera a morte do animal e tem mais do que um bicho, mais tolera a sua perda e reage melhor durante o luto.

"Quanto mais velha for a pessoa, mais facilidade tem em lidar com o luto, pois as emoções negativas diminuem com a idade dos donos e aumentam as positivas", explicou a investigadora, salientando que a expectativa da morte, que desencadeia um luto por antecipação, prepara os donos para a perda, "diminuindo assim o trauma".

Ana Sofia Silva esclareceu que o luto "é menos intenso quando o dono possui mais do que um animal, pois o outro animal continua a necessitar de tratamento e atenção, o que permite ao dono distrair-se, diminuindo, assim, as emoções e os sentimentos presentes nesta fase".

Como recomendações, os investigadores sugerem o acompanhamento psicológico dos donos em luto, uma prática recorrente, por exemplo, nos Estados Unidos.

O estudo, de acordo com Ana Sofia Silva, lançou novas pistas de análise, como o bem-estar e a preparação dos veterinários para a morte e a necessidade de psicólogos nas clínicas e nos hospitais veterinários.

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