Ingvar Kamprad: um simples rapaz do campo que sonhou e criou a IKEA

Um império milionário que se ergueu graças a um homem que foi capaz de aprender com os seus erros e não teve medo de pensar fora da caixa de forma a solucionar os problemas que se atravessaram no seu caminho. A IKEA é uma história de sucesso inigualável mas permeada de desafios constantes.

Assim que entramos no Museu da IKEA em Älmhult, é impossível não reparar nas palavras proferidas por Ingvar Kamprad: “Criar um dia a dia melhor para a maioria das pessoas”. Uma frase que se tornou no lema da internacional sueca que atualmente conta com 389 lojas no mundo inteiro. Mas como é que tudo começou?

Ingvar Kamprad foi criado numa quinta em Elmtaryd, perto de Älmhult, juntamente com a avó, Franziska, e a mãe, Berta Kamprad. Desde muito cedo que provou ter olho para os negócios, aproveitando todas as oportunidades que tinha para ganhar algum dinheiro. Com apenas cinco anos, começou a vender de porta em porta. Para além das sementes, canetas, peixe e cartões de Natal, começou a ganhar dinheiro ao vender fósforos à vizinhança. Com a ajuda da tia, adotou a seguinte estratégia: comprava grandes volumes de caixas de fósforos que posteriormente eram vendidos à unidade. As deslocações, que eram feitas na bicicleta da mãe, começaram a aumentar e depressa começou a expandir o seu negócio.

No verão de 1943 a sua vida muda radicalmente ao obter um documento, assinado pelo seu guardião legal, que lhe concedia autorização para começar aquele que viria a ser o negócio da sua vida e o tornou num dos homens mais ricos do mundo. Com apenas 17 anos fundou a empresa IKEA que é um acrónimo das iniciais do seu nome (Ingvar Kamprad), do nome da quinta onde cresceu (Elmtaryd) e da sua terra natal/paróquia (Agunnaryd). Outra curiosidade prende-se com o facto do empresário ter decidido fazer com que o nome da empresa parecesse francês colocando um acento agudo na palavra IKÉA. A ideia surgiu após uma viagem de negócios a Paris e foi utilizada pela empresa até 1967.

Relógios, lâminas de barbear, necessaires, aquecimentos, máquinas fotográficas e bijutaria eram apenas alguns dos produtos comercializados pela empresa que depressa abandonou a venda porta a porta e, em 1945, passou a anunciar em jornais e apostou no catálogo de vendas pelo correio. No espaço de dois anos, Ingvar decide alargar a sua oferta ao comercializar as suas primeiras peças de mobiliário: dois cadeirões e uma mesa de apoio. O sucesso dos artigos - de boa qualidade e com preços reduzidos - fez com que o empresário decidisse dar um novo rumo à empresa focando o seu negócio exclusivamente no mobiliário. Em 1951 é lançado o primeiro catálogo IKEA que atualmente é distribuído em 52 países. O objetivo? Chegar a mais pessoas.

Na altura, o sucesso e estratégia adotados pela IKEA não foi bem vista pela concorrência que, juntamente com outras empresas, tentaram boicotar o seu conceito de negócio. Para além de impedirem a sua presença em algumas feiras de mobiliário, diversas empresas impediram os fabricantes de vender mobília à IKEA. Isto levou Ingvar a desenhar a sua própria linha de produtos e abrir, em 1953, um showroom onde os clientes pudessem ver e testar os produtos ao vivo antes de fazerem a encomenda por catálogo.

Apesar das vendas irem de vento em poupa, o dono da IKEA depressa se deparou com novos desafios que o forçaram a pensar em soluções inovadoras. Uma delas era o transporte da mobília que provou ser trabalhoso e dispendioso não só para a empresa como para o próprio cliente. De forma a resolver o problema, o empresário apostou no conceito flat pack que consistia em vender o produto desmontado dentro de uma embalagem plana e que posteriormente era montado pelo próprio cliente.

Anunciado pela primeira vez em 1953, este método veio facilitar o transporte e fazer com que as peças de mobiliário chegassem intactas a casa dos clientes. Transformar problemas em oportunidades foi um dos lemas que pautaram o percurso profissional de Ingvar Kamprad que, aos 91 anos, é dono de uma fortuna avaliada em 65,5 mil milhões de euros.

Em 1958 é inaugurada a primeira loja da marca que veio revolucionar o setor mobiliário – produtos com design a preços baixos e de boa qualidade - e a forma de fazer compras. A pensar nos clientes que faziam longas viagens de comboio até Älmhult, em 1960 é inaugurado o primeiro restaurante IKEA, conhecido por oferecer uma grande variedade de produtos suecos e em, 1964, o primeiro Hotel IKEA pensado para acomodar os clientes que decidissem pernoitar em Älmhult depois de um dia de compras. O frenesim provocado pela abertura da primeira loja da marca em Estocolmo, inaugurada em 1962, foi um momento decisivo na história da IKEA. Sem mãos a medir para tanta gente, o staff decidiu implementar algo nunca antes visto: um serviço de self-service onde eram os próprios clientes a ir buscar os produtos desejados ao armazém da empresa. Algo que permanece até os dias de hoje e que é um fator de diferenciação da empresa. Foi também nesta altura que a multinacional sueca começou a utilizar materiais como o pinho e o carvalho na produção dos seus produtos.

Com o passar dos anos, a IKEA depressa deixou de ser apenas uma empresa de mobiliário para passar a ser uma empresa que oferecia tudo o que é necessário para a casa: desde têxteis e utensílios passando por acessórios. Ingvar Kamprad sempre teve dificuldade em decorar as referências dos seus produtos e para contornar o problema, o primo do empresário, Inga-Brita Bayley, decidiu criar um sistema de atribuição de nomes nunca antes visto, e que nos são cada vez mais familiares se formos assíduos da loja.

A expansão para outros países levou a que muitas lojas perdessem o verdadeiro espírito e valores da IKEA o que fez com que Ingvar Kamprad interrompesse a abertura de novos espaços durante um ano e criasse, em 1976, “The Testament of a Furniture Dealer”: um documento onde constam os nove princípios da empresa que devem ser seguidos por todos os colaboradores da multinacional. Inalterado desde 1967, foi também nesta altura que o empresário decidiu mudar o logotipo da IKEA. Para isso inspirou-se nas cores da bandeira da Suécia e criou o famoso logo azul e o amarelo que hoje é reconhecido em qualquer parte do mundo.

Para além de dar a conhecer a história da empresa, o Museu IKEA, inaugurado em junho de 2016, permite aos visitantes fazer uma viagem no tempo e acompanhar a evolução da empresa de mobiliário que conta com 74 anos de história: desde o design e os materiais utilizados, passando pelas capas dos catálogos lançados ao longo das décadas. Para além disso, entre os 20,000 objetos em exposição, constam alguns dos móveis mais icónicos da empresa: a estante BILLY, o sofá KLIPPAN ou a famosa poltrona POÄNG que, apesar dos anos de história, continuam a ser um sucesso de vendas.

O SAPO Lifestyle viajou até Älmhult a convite da IKEA.

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