Os jovens emigrantes e o regresso a casa nas férias

Portugal é um país de emigrantes. Desde há muitas décadas que nos habituámos a que o verão, e sobretudo agosto, seja o mês de regresso de muitos portugueses a viver fora do país. No entanto, a nova vaga de emigração coloca uma série de novos desafios quer aos jovens que regressam de férias como às suas famílias.

É neste período das férias que a maioria dos nossos emigrantes aproveita para matar saudades de todos os seus entes queridos que deixaram no país de origem. Mas é também nesta altura que têm que resolver questões tantas vezes adiadas até à sua visita, quer essas questões sejam mais burocráticas, quer relacionais. Muitas vezes a distribuição do tempo não é um processo fácil, sendo necessário uma flexibilidade considerável para se conseguir estar com quem se sentiu a falta mas também com um conjunto alargado de pessoas, de variados âmbitos sociais, que convocam esse momento.

Para um número considerável de pessoas este processo é, por si só, causador de ansiedade. Se pensarmos que, efetivamente, será necessário fazer escolhas de acordo com a duração das férias, então conseguimos perceber quão complicado isto se pode tornar. Se estiver a enfrentar este problema, poderá ajudar convocar um evento geral (como por exemplo, um piquenique num parque) para conseguir estar um pouco com um conjunto mais alargado de pessoas. Desta forma, ficará com mais tempo livre para reunir com as pessoas que lhe são mais significativas.

Por outro lado, e tendo em conta que uma parte considerável dos novos emigrantes saíram diretamente da casa dos pais, este regresso de férias poderá causar uma série de outras dificuldades, como por exemplo, a colocação de barreiras antigas a uma independência já adquirida, mas não vivenciada pela família de origem; ou a exigência de dedicação de muito tempo à família quando a importância de rever os amigos, que ficaram ou que partiram também, se impõe. Neste processo é muito importante que as famílias percebam a delicadeza do processo que estão a enfrentar. Por um lado, as saudades e a vontade que tudo esteja como sempre foi. Por outro, a passagem do tempo e a diferenciação dos elementos mais jovens da família. Apenas a flexibilidade e o diálogo poderão tornar este processo mais simples.

Pode ainda acontecer que a necessidade de emigração tenha contribuído para a manutenção/agravamento/complexificação de situações de conflito na família. A distância nem sempre funciona como elemento apaziguador destas questões, que ao ficarem latentes, poderão ter manifestações mais exuberantes na altura do reencontro. Muitas vezes questões antigas mal resolvidas têm potencial para causar muita instabilidade e perturbação. Se a resolução ou diálogo não forem uma alternativa, então remeta essas questões para o passado de onde elas surgiram mas, ao ganhar consciência deste processo, não hesite em tentar resolvê-las dentro de si, mesmo que para isso tenha de procurar ajuda.

O tempo não pára, nem nas férias. Espero que mesmo com todos estes desafios consiga encontrar o tempo para descansar e regressar ao trabalho revigorado.

Catarina Janeiro

Psicóloga Clínica

artigo do parceiro:

Comentários