No final de cada curva

Crónica de Ana Amorim Dias

- Gostava de ter sido camionista. - Sempre que o digo ficam a olhar para mim embasbacados, a tentar perceber se falo seriamente ou estou a ironizar.

Há algo nas estradas que me prende, fascina, enfeitiça. Sobretudo nas viagens feitas a sós com a minha música e os meus pensamentos. Vejo-me imensas vezes a desejar que a estrada não se acabe no destino; a imaginar até onde chegaria antes que o cansaço me vencesse.

Não ligo muito à viatura, apesar de, confesso, algumas me darem mais prazer que outras. Não me importa se a estrada é constantemente por mim usada ou uma via desconhecida; não penso no ponto de partida nem na hora da chegada.  O que me importa é o caminho e a sensação de movimento que esbate o horror da estagnação. O que importa é o encanto hipnótico do asfalto à minha frente e a maneira segura, prazerosa e consciente com que entro em cada curva. Creio que as curvas da estrada são para mim tão atrativas quanto as do meu interior porque quando entro nelas a paisagem muda para cenários tão fantásticos, incríveis e encantadores que tudo o que sei desejar é a eternização  da viagem. 

Ana Amorim Dias

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