Suicídio: É possível inverter a marcha

É uma realidade dura, difícil de entender: o que leva alguém a decidir pôr termo àquilo que de mais precioso tem, a sentir que não vale a pena viver essa vida que tem pela frente? A inquietação de tentar perceber como se dá um ato tão chocante é grande, mas não vale a pena procurar bodes expiatórios porque a explicação nunca é simples. Um artigo da psicóloga clínica Filipa Jardim da Silva.

De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS) existem sempre, não um, mas vários fatores que colocam em risco um indivíduo, sendo que para além da diversidade e complexidade de cada um destes fatores, é necessário considerar que interagem entre si.

Muito do que se sabe sobre o suicídio deriva de estudos nos quais os investigadores entrevistam familiares ou amigos desenvolvendo um trabalho chamado de “autópsia psicológica”, no qual tentam identificar à posteriori eventos específicos da vida da pessoa e sintomas sugestivos de doença psiquiátrica. E têm concluído que fatores genéticos, emocionais, ambientais e sociais conjugam-se culminando num ato de desespero, dos quais se podem destacar como principais fatores de risco:

- Depressão ou outro distúrbio mental e/ou dependência de substâncias (mais de 90% das pessoas que cometem suicídio apresentam estes quadros)

- Tentativa de suicídio prévia

- História familiar de perturbações mentais, abuso de substâncias ou suicídio

- Violência familiar, incluindo violência física ou abusos sexuais

- Armas em casa

- Exposição a comportamentos suicidas de outros (familiares, pares ou figuras media)

A sensação do "beco sem saída"

Dados publicados na revista Suicide and Life-Threatening Behavior a propósito de uma nova investigação sugerem que um dos fatores predominantes é a sensação de que não é possível continuar a suportar a dor psicológica e a dúvida de se algum dia será possível (a sensação de se estar num “beco sem saída”).

Os dados indicam que uma tentativa de suicídio pode não ser apenas um ato impulsivo ou um pedido de ajuda, contrariamente ao defendido por estudos anteriores; poderá ser, sim, reflexo de um “depósito” de dor e sofrimento acumulados, ao qual se junta a descrença de que algum dia esse “depósito” possa esvaziar e tornar-se menos penoso, sendo a percepção da morte um fator que poderá distinguir os que pensam em suicídio daqueles que realmente o praticam – quanto menor medo existir de morrer, maior o risco.

O suicídio é considerado a nível global como um problema de saúde pública, tanto nos países industrializados como nos em vias de desenvolvimento, sendo permanentemente objeto de investigação.

Vários estudos defendem que a tendência de aumento das taxas na maior parte dos países se deve à perda da coesão social, ao desaparecimento das estruturas familiares, ao aumento da instabilidade económica e aumento do desemprego e ao também aumento da prevalência de desordens do foro depressivo.

Um milhão de casos por ano

Todos os anos morre um milhão de pessoas de suicídio. Uma taxa de mortalidade global que representa uma morte a cada 40 segundos e uma tentativa de suicídio a cada 3 segundos. Além disso, os comportamentos suicidas são mais extensos e numerosos, indo muito além dos atos consumados e das tentativas.

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