A importância da educação menstrual

Estudos recentes da American Association of University Women apontam para uma curva ascendente na perda da auto-estima em raparigas de países desenvolvidos entre os 9-10 anos e a adolescência.

Na escola básica, metade das meninas conseguem facilmente identificar coisas “que são boas a fazer” mas esta percepção de si – ao contrário da dos rapazes que se mantém muito mais constante – vai-se degradando à medida que vão crescendo, resultando na perda de confiança e dando lugar a sentimentos de insegurança, inadequação, incapacidade de se expressar e uma maior preocupação sobre o que os outros pensam delas.

Uma das causas apontada é a da hiper-responsabilização das raparigas no sentido de adequar as suas atitudes e comportamentos ao socialmente expectável.

No médio prazo, este processo acaba por remetê-las a uma postura de silêncio interior e de apagamento social no que respeita as suas vontades e necessidades, desequilibrando a dinâmica necessária à evolução da sociedade resultante da polaridade dos géneros, por anular a visão e forma feminina de estar e de contribuir para a sociedade.

Ao chegar à idade adulta, na impossibilidade de resgatar as meninas que foram antes dos condicionamentos e construções sociais e à falta de melhor fio de prumo, reproduzem as atitudes do Masculino: são “super-mulheres” desconectadas do corpo que aprenderam a calar como mecânica de sobrevivência.

A forma como o Ocidente tem lidado com a menstruação nas últimas décadas, após a revolução sexual, trouxe a possibilidade de controlo do processo fisiológico mas (e talvez por isso) acabou por (voltar a) reduzi-lo a um assunto de raparigas.

A chegada da menarca – a primeira menstruação - é uma confirmação irrefutável de identidade biológica e da capacidade de criar e gerar vida.

O processo físico subsequente - visível e de porte - é, na generalidade das vezes, menos impactante do que o processo emocional que aí se inicia e que por sua vez acaba vivido para dentro, com sentimentos de inadequação, vergonha ou visto como um incómodo apenas partilhado entre pares.

A anulação das qualidades do Feminino subjacentes ao processo de criar, remete as raparigas para o vazio referencial, buscando atitudes com as quais têm dificuldade em se rever mas que acabam por automatizar e integrar.

A chegada do primeiro sangue foi outrora motivo de grande celebração: uma prova de fertilidade, de vida e de continuidade da espécie. Aos dias de hoje, e a ocidente, tudo isto permanece mais ou menos válido.  À excepção do enquadramento. E isso muda tudo.

A baixa auto-estima está no centro dos maiores problemas com que nos debatemos a nível pessoal, condicionando e (invariavelmente) remetendo para uma necessidade inequívoca de validação externa, para actos de submissão ou de comportamentos nocivos em prol de uma identidade forjada para integração no grupo.

A necessidade de devolver a menstruação às raparigas, passa sobretudo por reenquadrar a perceção que se tem da própria menstruação e do corpo feminino.

Em maior escala, permitir-lhes corrigir a ligação com o seu corpo, reconhecendo a sua “mecânica fisiológica” mas devolvendo o entendimento dos ciclos naturais, centrando-as em si e no macro-cosmos numa dinâmica de identidade e de valorização pessoal. Como fim último: a aceitação de si, das suas capacidades emocionais, físicas, psicológias e intelectuais como resultado de um processo pleno decorrente do respeito pela identidade de cada uma.

Reconhecer o corpo feminino como uma célula micro do cosmos, um efeito espelho em mínima escala daquilo que a Natureza produz e faz perdurar, permitirá reconhecer e validar o Feminino como algo legítimo e autónomo - em vez da usual “alternativa ao Masculino” - restabelecendo a tomada clara de posições que permitirão dinâmicas relacionais de género indispensáveis a uma evolução social equilibrada.

Celebrar o corpo, respeitar os seus ritmos, aceitar as suas formas, compreendendo e aceitando a natureza cíclica da menstruação e da condição feminina, é a única forma de devolver às meninas a sua auto-estima para que seja possível ver nascer uma nova geração de mulheres mais confiantes, mais seguras, mais saudáveis, mais socialmente capazes, interventivas e conscientes do seu potencial enquanto indivíduos.

Patricia Lemos

Patrícia Lemos
Hipnoterapeuta e Educadora Menstrual
www.patricia-lemos.com

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