“Uma dieta com alimentos processados e fast food não nos torna mais evoluídos”, - Nutricionista Mariana Abecasis

Menos alimentos processados e fast food e um reencontro com as origens são mensagens que a nutricionista Mariana Abecasis nos transmite no livro “Vamos Conhecer os Alimentos”. Um guia ilustrado para crianças curiosas e pais responsáveis.

Depois de bisar nos escaparates com a “Dieta Perfeita”, a nutricionista Mariana Abecasis retorna aos livros e volta-se para um público difícil, as crianças. Em “Vamos Conhecer os Alimentos”, uma edição da Booksmile, encontramos mais do que um manual do bem comer para a infância. Fundada na sua prática clínica e nos princípios de uma alimentação equilibrada, natural e funcional, Mariana Abecasis, apresenta-nos de forma esquemática e profusamente ilustrada, dezenas de alimentos. Frutos frescos e secos, legumes, leite e derivados, carnes, peixes, especiarias, mel, água, entre outros, são alvo do interesse da nutricionista. De onde chegam, como crescem, mitos e factos, propriedades nutritivas são algumas das abordagens que Mariana esmiuça na obra.

A nutricionista segue fiel ao seu projeto para a dieta alimentar: diversa, sem radicalismos, com respeito pela sazonalidade, pela origem dos alimentos. Um dizer não aos alimentos processados e ao fast food. Um livro que também é um piscar de olhos para pais e educadores, como sublinha Mariana nesta conversa. Uma entrevista que não esquece questões prementes, como a obesidade infantil e uma realidade vincada neste século XXI, a pressão da industrial alimentar e a responsabilidade desta junto dos consumidores.

Mariana Abecasis
Mariana Abecasis é licenciada em Ciências da Nutrição pelo Instituto Superior de Ciências da Saúde Egas Moniz e mestre em Nutrição pela Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboacréditos: José Diogo Lucena / WSA

Mariana, seria importante antes de nos determos seu mais recente livro, “Vamos Conhecer os Alimentos”, percebermos como encara a todos estes movimentos em torno da nutrição?

Nos últimos anos deu-se um boom, ou seja, há um crescimento muito grande à volta da nutrição. Há um conjunto de blogueres, de cozinheiras, de mães de família, pessoas autodidatas que, não sendo nutricionistas, acrescentam muito valor a esta área. Contudo, ao fim de algum tempo, os conceitos estão baralhados, o que é mais científico e o que é menos científico. A nutrição tem crescido muito e, tal como nas outras áreas, também há muito negócio em torno de tudo isto. No meu caso particular, sou nutricionista, estudei Ciências da Nutrição e já trabalho há sete anos, maioritariamente, em nutrição clínica. Algo que adoro. Neste momento tenho o meu próprio consultório.

Em suma, como define a Mariana Abecasis a sua abordagem nesta área?

Defino o meu trabalho como uma abordagem prática e simples, ou seja não complicar o que não é complicado. Pretendo mostrar a quem me procura e aos meus seguidores que estamos perante matérias que, não obstante terem a sua complexidade, quando explicadas e enquadradas tornam-se assuntos ao alcance de qualquer um. Mais, podemos mudar para melhor a nossa alimentação recorrendo a produtos próximos que encontramos, por exemplo, no supermercado.

Com algumas restrições, presumo?

Sobretudo adaptadas ao objetivo e às condições clínicas de cada pessoa. Por vezes o truque está em não inventarmos muito. Olharmos para os produtos portugueses bons, disponíveis até nas grandes superfícies. Não procurar o produto complicado que, depois, não vamos aplicar no dia-a-dia, um quotidiano que inclui os filhos, o trabalho e a falta de tempo.

“Uma dieta com alimentos processados e fast food não nos torna mais evoluídos”, - Nutricionista Mariana Abecasis
Excerto do livro "Vamos Conhecer os Alimentos"

A Mariana anteriormente escreveu dois livros em torno da “Dieta perfeita”. Que dieta perfeita é esta?

Não praticar uma alimentação estanque. Um mesmo indivíduo, dependendo da fase de vida em que está, ou do contexto, precisa de se adaptar. Não tenho de ser eu a adaptar o meu dia ao plano alimentar, é este, se for perfeito, que se adapta àquilo que eu faço, aos meus horários, à minha fase de vida. É isto que eu procuro, ajustar o plano alimentar à pessoa.

Ao terceiro livro, “Vamos Conhecer os Alimentos”, dedica particular atenção a um público muito específico, o infantil. Qual foi a principal motivação?

Sem dúvida, a educação alimentar. Uma criança motivada interessa-se pelos assuntos, procura os porquês e, depois, obtendo uma resposta vai coloca-la em prática.

Quais são os principais objetivos subjacentes ao livro?

Não o lancei como golpe de marketing, inspirei-me no que se observa em relação à reciclagem. Na nossa geração e nas gerações anteriores, esse assunto não era falado nem ministrado na escola. Reparei que as crianças defendem a reciclagem e que são eles que educam os pais para a fazerem em casa. Hoje em dia a maior parte dos pais faz reciclagem porque as crianças impuseram. Educando as crianças em relação à alimentação, percebendo o porquê das coisas, essa informação acaba por entrar nos lares. Considero que este facto tem um impacto muito grande no futuro das crianças mas também no comportamento dos pais.

Nesse sentido podemos dizer que o livro também é um piscar de olhos aos pais e educadores.

Chegando às crianças também é uma forma de chegar aos pais. As crianças estão habituadas a cumprir regras portanto a tendência natural é seguir e obedecer aquilo que aprendem.

Ou seja, os pais ao lerem este seu livro aprendem, cozinham e com isto estão a dar o exemplo à mesa. Não se pode dizer ao filho para comer brócolos e o adulto come as batatas fritas, certo?

Sim, sem dúvida. O princípio é “faz o que eu digo e faz o que eu faço”. As crianças aprendem a falar porque observam os pais e as pessoas que estão à sua volta a falar, aprendem a andar pelos mesmos exemplos. Se, em casa, tiverem exemplos contraditórios, na cabeça das crianças isso não faz sentido. Estamos, aqui, a falar de uma alimentação para a família e não somente para determinado membro.

“Uma dieta com alimentos processados e fast food não nos torna mais evoluídos”, - Nutricionista Mariana Abecasis

Mariana, a generalidade dos adultos nunca soube comer racionalmente, ou desaprendeu?

Acho que nós temos uma base e uma história alimentares ricas e saudáveis, mas, eventualmente, associada a uma classe social mais baixa. À medida que a sociedade evoluiu, de alguma forma e inconscientemente considerámos que modernizar seria fugir das referências anteriores que tínhamos. Há uma geração que fugiu da alimentação mediterrânica e é importante voltarmos porque temos uma base alimentar portuguesa muito rica. Uma dieta com alimentos processados e fast food não nos torna mais evoluídos.

Mas temos uma máquina industrial e comercial muito forte a vender e a gerar uma narrativa que é difícil combater…

Sim, durante muitos anos a indústria pensou muito em potenciar sabor, com gordura e sal, e em ser líder de vendas. Só agora é que começa a haver uma preocupação por parte da fileira e a contratar especialistas da área da nutrição. Percebem que o que foi feito durante uns bons anos repercute agora na saúde. Há um processo de reversão. Neste momento a indústria não pode subtrair de imediato aos alimentos os sabores que lhes colocou, mas tem de encontrar alternativas e pensar na saúde dos consumidores.

Há uma preocupação sua com a origem do produto. As crianças estão muito afastadas da origem dos alimentos?

Sim. Atualmente tudo é tão moderno, tão industrializado que, quando abrimos um pacote, não fazemos ideia do que ali está. Há um estudo muito interessante em que pedem às crianças para desenharem um frango ou um atum, e neste caso eles desenham uma lata. No fundo, neste meu livro, o que faço é abordar as verdadeiras matérias-primas. O que é realmente o alimento e não o processado.

“Uma dieta com alimentos processados e fast food não nos torna mais evoluídos”, - Nutricionista Mariana Abecasis

Neste seu livro também pretende tirar as pessoas de casa, levando-as às origens dos alimentos…

Exatamente, será excelente se algumas vezes os pais puderem fazer esse exercício e levar os filhos a um mercado, a uma quinta pedagógica. Faz muita diferença ver a carne, o peixe, os legumes, as frutas, antes de transformados.

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