Variante do vírus VIH descoberta na África Ocidental não é nova, garante especialista

Indivíduos infetados por estirpe agora descodificada desenvolvem Sida mais rápido
5 de dezembro de 2013 - 15h13



O infecciologista Kamal Mansinho esclareceu hoje que a variante do vírus VIH descoberta na África Ocidental não é nova, também circula na Europa e a terapêutica antirretroviral existente é eficaz no tratamento dos doentes.



A imprensa divulgou na semana passada um estudo desenvolvido por investigadores da Universidade de Lund, na Suécia, segundo o qual foi descoberta na África Ocidental uma nova e mais agressiva estirpe do vírus VIH.



Segundo o estudo, os indivíduos infetados por esta nova estirpe “desenvolvem sida no prazo de cinco anos”, uma progressão “dois anos a dois anos e meio mais rápida” do que a verificada com outras estirpes.



“Não se trata de um novo vírus”, disse à agência Lusa Kamal Mansinho, adiantando que “estas variantes já circulam há muito tempo”.



Segundo o investigador, a “única coisa nova neste trabalho” é ter-se conseguido acompanhar no tempo a evolução da doença num grupo de cerca de 100 doentes.



“Desde há longa data que se procura saber e aprender com a evolução da infeção por VIH se algumas das variantes que se vão identificando nas pessoas infetadas, têm ou não têm influência sobre a maior ou menor rapidez da evolução da doença”, explicou.



Lembrou que a capacidade do VIH “sofrer mutações muito rapidamente no organismo das pessoas infetadas” é uma das razões pelas quais “é muito difícil” descobrir uma vacina contra este vírus.



“Isso vai criando, em cada momento, algumas variantes que vão sendo diferentes da variante inicial com a qual a pessoa se infetou”, disse, acrescentando: “Se algumas destas mutações podem provocar uma rapidez de multiplicação do vírus, também há as mutações compensatórias que podem perturbar a capacidade de multiplicação do vírus”.



O facto de no laboratório se conseguir estabelecer e definir que há algumas mutações que podem aumentar a capacidade de multiplicação do vírus, isso não significa obrigatoriamente que no corpo humano a repercussão seja necessariamente progressão mais rápida da doença, explicou.



“Uma coisa é a constatação que nós temos do ponto de vista dos impactos ao nível do laboratório destas mutações e a outra é o impacto no corpo humano”, disse.



O estudo “é interessante” porque, pela primeira vez, estuda um conjunto de pessoas infetados, definindo algumas dessas variantes, procurando perceber “a evolução que a doença teve de acordo com estas mutantes víricas em cada pessoa”.



A investigação permitiu concluir no grupo acompanhado que, na variante estudada, os doentes tinham “um risco de progressão mais acelerado de doença do que aqueles que não eram portadores desta variante”.



Mas, ressalvou, “isso não permite assumir ou generalizar esta conclusão para a população de infetados por VIH”.



Contudo, “é um passo importante” para se procurar “saber e consolidar este conhecimento” de maneira a que se possa olhar para a infeção por VIH de “um prisma mais seletivo” quando se fala das variantes víricas.



Por outro lado, realçou, “a questão que se coloca na prática é que, independentemente destas variantes víricas que constamos neste estudo, os medicamentos antirretrovirais são eficazes para o tratamento destas infeções”.



“Estamos numa fase do conhecimento em que não podemos retirar conclusões definitivas. Há de facto um avanço importante, apenas na perspetiva do número de doentes acompanhados, mas isso não permite dizer que todos os indivíduos que forem portadores desta variante irão comportar-se desta forma”.



Lusa
artigo do parceiro: Nuno Noronha

Comentários