Poluição: "Se não fizermos nada, acabaremos mais vezes a rir e a tossir compulsivamente", diz médico

Em outubro, a organização ambientalista Zero alertou que a mortalidade associada à qualidade do ar é "muito significativa" em Lisboa, Porto e Braga. Conversámos sobre os efeitos da poluição na saúde com o médico e professor João Fonseca, vice-presidente da Sociedade Portuguesa de Alergologia e Imunologia Clínica.
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Os atuais níveis de poluição atais são nocivos?

Segundo o índice de qualidade do ar disponível na base de dados da Agência Portuguesa do Ambiente, que engloba concentrações de dióxido de azoto (NO2), dióxido de enxofre (SO2), monóxido de carbono, ozono (O3) e partículas inaláveis ou finas (PM10), a qualidade do ar na zona metropolitana de Lisboa é habitualmente boa. No entanto, nos últimos dias tem sido reportado um índice de qualidade médio ou mesmo fraco, com níveis especialmente altos de PM10 e de dióxido de azoto. Esta concentração de NO2 está relacionada com um maior número de internamentos com diagnóstico principal de asma no distrito de Lisboa.

João Fonseca, médico, professor e vice-presidente da Sociedade Portuguesa de Alergologia e Imunologia Clínica
João Fonseca, médico, professor e vice-presidente da Sociedade Portuguesa de Alergologia e Imunologia Clínicacréditos: DR

Que cuidados é que os lisboetas devem ter por causa deste aumento da poluição?

As recomendações gerais para quando a qualidade do ar é fraca são evitar ou limitar atividades físicas intensas ao ar livre, sobretudo as pessoas sensíveis (crianças, idosos e indivíduos com problemas respiratórios). Os doentes do foro respiratório e cardiovascular devem ainda respeitar escrupulosamente os tratamentos médicos em curso ou recorrer a cuidados médicos extra, em caso de agravamento de sintomas. A população em geral deve evitar a exposição a outros fatores de risco, tais como o fumo do tabaco e a exposição a produtos irritantes contendo solventes na sua composição.

E para as pessoas com asma aplicam-se estas recomendações gerais, sendo o mais importante prevenir.

Não podemos nunca esquecer que o tabaco é o principal problema e que passamos mais tempo dentro de edifícios, pelo que a qualidade do ar interior é também fundamental
Como é que um asmático pode fazer prevenção?

Pode fazê-lo tendo a sua asma bem controlada de modo a que alterações ambientais ou outras não sejam suficientes para desencadear um ataque de asma.

Para conseguir este bom controlo da asma o conselho não pode ser mais óbvio mas infelizmente muitas vezes não seguido: façam a medicação de controlo de asma e não apenas medicação de alívio que apenas disfarça os sintomas, mas não previne agravamentos. Esta é a mensagem mais importante para "vencer a asma".

De qualquer modo, principalmente principalmente para as pessoas com asma com idades muito jovens ou mais idosas, é importante verificarem que têm sempre a medicação de alívio e que está dentro do prazo de validade. Por outro lado, é importante que se saiba utilizar bem o inalador pois é muito frequente não aproveitar a medicação por erros de utilização.

Enquanto profissional de saúde, acha que o Governo deveria tomar medidas mais restritivas para conter a poluição?

A proteção da saúde, nomeadamente a saúde respiratória, é cada vez mais importante. Mas é preciso ser claro, a poluição atmosférica é apenas um dos fatores de poluição que influenciam a asma e outras doenças das vias aéreas.

Não podemos nunca esquecer que o tabaco é o principal problema e que passamos mais tempo dentro de edifícios, pelo que a qualidade do ar interior é também fundamental.

A boa ventilação dos edifícios, a ausência de infiltrações e dados por água ou humidade, os materiais de revestimento e o próprio mobiliário e equipamentos (como a manutenção do ar condicionado) têm também enorme importância. Neste campo, muito do que deve ser feito não vem de medidas do governo. Claro que para combater a poluição atmosférica, a redução da utilização dos derivados no petróleo para produção de energia e para os motores a combustão dos automóveis e outros veículos seria muito importante.

O governo, mais do que proibir e restringir, tem de criar condições a que os cidadãos e até as empresas utilizem energias e veículos não poluentes. Para isso os impostos são um meio muito eficaz. por exemplo, reforçando em vez de reduzir os benefícios de veículos eléctricos e da produção de energias renováveis.

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