Portugueses descobrem que dor crónica reduz capacidade de memória a curto prazo

Lesão dolorosa gera redução significativa da quantidade de informação assimilada pelo cérebro
6 de fevereiro de 2013 - 11h44



A dor persistente altera o fluxo de informação entre duas regiões do cérebro que são fundamentais para a retenção de memórias temporárias, revela uma investigação do Instituto de Biologia Molecular e Celular da Faculdade de Medicina do Porto.



Na investigação, lê-se que “as pessoas que sofrem de dores crónicas queixam-se frequentemente de situações de défice em memória de curto prazo. No entanto, os mecanismos nervosos que poderiam justificar estas ocorrências não são ainda conhecidos”, cita a Lusa.



Estudos recentes em animais têm demonstrado que a dor induz distúrbios em diversos processos cognitivos, para além das alterações plásticas das vias sensoriais, ou seja, “o cérebro remodela as vias pelas quais sentimos e pensamos”, explicam os autores do trabalho.



Dos muitos distúrbios cognitivos que têm sido observados, os mais importantes são alterações na memória espacial, memória de reconhecimento, défice de atenção e tomada de decisões.



Liderada por Vasco Galhardo, a equipa de três investigadores, dá a conhecer a forma como um circuito neuronal que é crucial para o processamento de memória de curto prazo é afetado. O circuito, estabelecido entre duas partes do encéfalo (o córtex pré-frontal e o hipocampo), é essencial para a codificação e retenção de informação de memória espacial temporária.



Para isso os investigadores recorreram a elétrodos implantados permanentemente no encéfalo de animais e registaram a atividade neuronal durante a execução de uma tarefa comportamental dependente de memória espacial: os animais foram treinados num labirinto em que tinham de escolher entre dois caminhos alternativos e depois relembrar o circuito escolhido.



Os resultados mostram que “após o início da lesão dolorosa ocorre uma redução significativa da quantidade de informação que é partilhada pelo circuito. Isto pode significar uma perda na capacidade de processar informação de memória sobre localização espacial ou pode significar que essas regiões fundamentais para a memória são agora ‘invadidas’ por estímulos dolorosos que vão perturbar o fluxo de informação neuronal de memória”.



Fica provado que em resultado da dor crónica “são, também, afetados circuitos neuronais relacionados com processamento de memórias e emoções, o que pode levar a repensar as estratégias mais abrangentes para o tratamento de patologias dolorosas”, acrescenta o investigador.



O trabalho foi publicado na terça-feira no “Journal of Neuroscience”.



SAPO Saúde com Lusa
artigo do parceiro: Nuno Noronha

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