Opinião: Ouvir mal, interpretar mal

Em Portugal, os números apontam para cerca de um milhão de pessoas com deficiência auditiva diagnosticada. As origens desta deficiência têm explicações diversas, mas a necessidade de proteção e prevenção torna-se emergente e transversal na realidade social. Por Rui Ribeiro Nunes, audiologista.
créditos: PixaBay

O Homem é um ser comunicante por excelência. A fala constitui o seu principal veículo de comunicação, sendo determinante no desenvolvimento cognitivo, na aprendizagem e na relação interpessoal a nível familiar, social e profissional.

Uma alteração da qualidade auditiva, por muito pequena que ela seja, é suficiente para causar perturbações no processo de comunicação oral, com consequências não só na qualidade e conteúdo da informação rececionada pelo interlocutor, como também em possíveis alterações comportamentais.

Importância da deteção na infância

Existem vários exemplos diários que ilustram esta realidade, apesar de alguns deles não serem muitas vezes diretamente associados às dificuldades auditivas. Uma criança que nasce com uma perda auditiva ou a adquira nos primeiros dois anos de vida, consoante o grau, poderá ficar privada de aceder ao desenvolvimento da linguagem oral, com graves repercussões no seu desenvolvimento cognitivo e comportamental.

Uma criança em idade escolar que apresenta dificuldades auditivas, é normalmente uma criança desatenta e com dificuldades escolares pela sua desintegração do meio auditivo em ambiente escolar.

Um adulto em ambiente familiar, social ou laboral necessita de uma excelente qualidade auditiva, se quiser ter acesso a todo o conteúdo informativo veiculado na empresa pelas chefias, pelos colegas ou pelos familiares e amigos. A exposição ao ruído e à música forte em concertos e através de auscultadores é hoje uma realidade entre os jovens. A falta de sensibilização e desconhecimento relativamente à perda precoce progressiva e definitiva da audição com este tipo de exposição, necessita de ser abordada com várias ações junto da população.

Uma deficiente receção da informação oral veiculada é muitas vezes suficiente para que possam surgir interpretações erradas das instruções ou recomendações, levando a que sejam praticadas ações, muitas vezes descontextualizadas e fora do pretendido.

Comentários